Cinema

Scarlett contra a Disney: o que significa esta guerra de milhões

José Miguel Gaspar

Scarlett Johansson, 36 anos

Foto D.r.

Atriz, que é também produtora de "Viúva Negra", processa estúdio por antecipar estreia do filme na plataforma de streaming. E alega que perdeu 50 milhões de dólares de lucros na bilheteira. Disney responde que a ação "é triste" e que "não tem qualquer mérito".

Na épica cena da batalha final de "Viúva Negra", o filme de ação e aventuras da Marvel que é centrado na protagonista feminina órfã e nos seus dramas à volta da crise de identidade e do crescimento numa falsa família adotiva, a heroína homónima diz a dado passo: "Agora vocês são livres, já podem fazer as vossas próprias escolhas".

A Viúva Negra é a atriz Scarlett Johansson e ela diz aquela frase catártica às mulheres que acabou de libertar do jugo do ditador General Dreykov (o ator Ray Winstone), que tinha habilidades telecinéticas e as subjugava com facilidade ao seu poder masculino mental.

O filme não sublinha só o valor da nova independência da mulher e do emocionante empoderamento feminino a que assistimos socialmente nesta segunda década dos anos 2000. Funciona também como um paralelo entre a revolução tectónica que estamos a presenciar com a ação judicial que a estrela do filme empreendeu esta semana contra a sua distribuidora, a poderosa Walt Disney Company.

Em causa está a repartição de lucros de bilheteira do filme e a nova modalidade de exibição de cinema, que está a mudar velozmente debaixo dos nossos olhos, com as plataformas de streaming a adquirirem uma importância financeira que há menos de um ano e meio era completamente distinta daquela que a pandemia do coronavírus veio criar.

Haverá 50 milhões em disputa

Scarlett Johansson, 36 anos, atriz de topo de Hollywood, está a processar judicialmente a Disney por causa da sua polémica estratégia de lançamento de "Viúva Negra". A ação fez estalar as tensões latentes entre os atores de primeira linha e as empresas de média que usam os seus filmes para expandir espetacularmente os serviços de streaming e captar cada mais assinantes - excluindo os atores dos novos lucros.

Numa mediática queixa apresentada na quinta-feira nos tribunais de Los Angeles, Scarlett acusou a Disney de quebra de contrato ao estrear o filme dos Estúdios Marvel na sua plataforma de streaming Disney+ exatamente no mesmo dia em que a fita chegou às salas de cinema.

Os representantes da atriz dizem que a estratégia é "altamente prejudicial" para sua cliente no que diz respeito à distribuição dos lucros de bilheteira. Scarlett, além de protagonista, é também produtora e aceitou diminuir substancialmente o seu salário, com a promessa de encaixar mais tarde parte dos lucros sobre a venda de bilhetes nas salas de cinema. Mas, com a nova estratégia da simultaneidade de estreia em sala e em streaming, que Scarlett diz ter sido decidida unilateralmente pela Disney, a compensação financeira da atriz diminuiu drasticamente - e alega perdas superiores a 50 milhões de dólares.

Filme já deu lucro de 218 milhões e continua a somar

Os valores de "Viúva Negra", que estreou a 8 de julho, são estes: na primeira semana de exibição em salas de cinema, o filme fez 80 milhões de dólares em bilhetes vendidos nos Estados Unidos, mais 78 milhões no resto do mundo. Mas os valores caíram radicalmente na segunda semana de exibição. Porquê? Porque o filme esteve logo disponível em streaming e não lhe foi dado tempo de exibição exclusiva em sala. Na plataforma de streaming Disney+, os lucros chegaram a 60 milhões só em sete dias e continuam a somar (a plataforma cobra 30 dólares extra por cada visionamento em casa).

A tese é esta: como os dividendos de Scarlett Johansson só se aplicam às bilheteiras, e não ao streaming, a atriz, que acusa agora a Disney de má fé, perdeu muitos milhões.

"O processo é especialmente triste"

A Walt Disney Company já reagiu. E com violência, dizendo que "não há mérito algum" na ação judicial da atriz. "O processo é especialmente triste e angustiante na indiferença que revela pelos terríveis e prolongados efeitos globais da pandemia covid-19", disse o representante da Disney em comunicado, referindo-se às "severas perdas que a indústria cinematográfica sofreu devido à pandemia do coronavírus que fechou milhares de salas de cinema".

Mais: "A Disney cumpriu integralmente o contrato com a senhora Johansson e, além disso, o lançamento de "Viúva Negra" no Disney+ melhorou significativamente a sua capacidade de ganhar lucros adicionais em cima dos 20 milhões de dólares que já recebeu até este momento".

"O que eles querem é ter mais assinantes"

A ação, movida no Tribunal Superior de Los Angeles e revelada esta semana pelo "Wall Street Journal", está a ter o efeito de um terramoto e está a assustar os grandes estúdios, justamente porque o caso, se for ganho por Scarlett Johansson, pode fazer jurisprudência e alterar o panorama atual na relação empresarial que existe os atores de topo, que se sentem literalmente roubados pelos estúdios que decidem lançar os seus filmes simultaneamente em serviços de streaming e nas salas de cinemas.

"Não é segredo nenhum que a Disney está a lançar filmes como 'Viúva Negra' diretamente na Disney+ para aumentar o número de clientes assinantes e, assim, impulsionar o preço das ações da empresa, que está cotada em bolsa", disse John Berlinski, advogado de Scarlett, em comunicado. Mais: "A Disney está a esconder-se atrás da covid-19 como pretexto para este ardil. Mas, ignorar os contratos dos artistas responsáveis ​​pelo sucesso dos seus filmes em prol dessa estratégia cega viola os seus direitos e esperamos provar isso mesmo nos tribunais".

Berlinski continuou: "Este certamente não será o último caso em que o talento de Hollywood enfrentará a Disney e deixará claro que, independentemente do que a empresa possa alegar, tem a obrigação legal de honrar os seus contratos. Esta luta é sobre isso", concluiu o advogado.

O que se segue agora?

Esta batalha entre Scarlett e a Walt Disney Company, que só agora começou, pode representar um vendaval na arquitetura da indústria de exibição de filmes - mas falta ainda saber se outros artistas, sobretudo cineastas e atores, que são e foram sempre as estrelas do sistema industrial, decidirão abrir processos judiciais públicos do mesmo tom ou se querem resolver as suas desavenças salariais em privado. Certo parece ser que o panorama mudou irrevogavelmente.

Os lançamentos simultâneos de filmes nas salas de cinema e nas plataformas de consumo caseiro tornaram-se comuns em 2020, devido à pandemia do coronavírus que obrigou milhões de pessoas a ficarem fechadas em casa, alterando, provavelmente para sempre, a prática tradicional instituída.

Era assim há décadas, desde que foi inventado o vídeogravador: primeiro os filmes estreavam nas salas, ficavam aí até serem espremidos ao máximo da sua rentabilidade e só meses depois chegavam aos clubes de vídeo para serem vistos em casa e gerarem novos lucros.

O sistema manteve-se quando surgiram as plataformas streaming, mas a janela temporal tem vindo a apertar cada vez mais, até que atingimos a simultaneidade de estreias atual, como é o caso de "Viúva Negra" ou da animação "The Boss Baby: Family business", que chegou aos cinemas este fim de semana no mesmo dia em que estreou no serviço de streaming Peacock, nos EUA.

John Krasinski também se queixou

A Bloomberg News revelou agora que o realizador de "Um lugar silencioso 2", John Krasinski, e a protagonista do arrepiante thriller ficção científica, que é também sua mulher, a atriz Emily Blunt, queriam receber mais dinheiro da Paramount Pictures depois de o filme ter sido disponibilizado na plataforma Paramount+ apenas 45 dias após o lançamento nos cinemas.

O casal diz que o filme, supostamente, ainda podia render muito mais em bilheteira (fez 191 milhões de dólares) se estivesse mais tempo em exclusivo nas salas de cinema. No entanto, Krasinski e Blunt terão chegado a acordo com a produtora e não se avançou para a guerra em tribunal.

Denis Villeneuve também dispara

Agora, antecipam analistas da indústria, os tempos mudaram e já não se volta ao passado. A tendência da simultaneidade entre estreia em sala e no streaming é uma modalidade que veio para ficar, sendo esse o desenho do futuro imediato.

Também a Warner Brothers, estúdio de referência que já vem do século XX, está a adotar as vantagens da transformação digital. Recentemente, a Warner anunciou que produzirá 10 filmes que terão estreia exclusiva em 2022 na HBO Max, plataforma da Warner Media que tem 47 milhões de assinantes nos EUA. E que também vai cobrar uma taxa extra pelo visionamento em casa.

O realizador Denis Villeneuve, cujo épico fantasista de grande orçamento "Duna", com os atores Timothée Chalamet e Jason Momoa, vai estrear ainda este ano (3 de setembro), também critica a Warner num artigo de opinião editado pela revista "Variety".

Diz o cineasta de "Blade Runner 2049": "A súbita reversão da Warner Bros, que passou de um tempo em que assumia espírito coletivo de missão, para esta nova era digital de total desconsideração pelos autores, traça uma linha muito clara para mim", disse Villeneuve. "A produção de filmes é uma colaboração, depende da confiança mútua do trabalho em equipa e a Warner Brothers declarou com isto que eles já não estão na mesma equipa que os realizadores e os atores".

O próximo filme de grande orçamento da Disney, "Jungle Cruise - Maldição nos confins da selva", uma aventura para toda a família com Dwayne Johnson e Emily Blunt, estreou esta semana nos cinemas e no canal de streaming da Disney+. Quem o quiser ver em casa, além do que já paga pela subscrição mensal do canal (8 dólares), tem que pagar mais 30 dólares pelo visionamento.