Dança

Sexo, geometria, poesia e violência

Catarina Ferreira

"One of four periods in time" de Tânia Carvalho

Foto Théo Giacometti /direitos Reservados

Nem todos os caminhos da dança são lineares, assim o demonstrou "Childs, Carvalho, Lasseindra, Doherty", espetáculo que esteve esta sexta e sábado em cena no Teatro Rivoli, no Porto. Um programa apresentado pelo Ballet National de Marseille, dirigido pelo coletivo artístico francês (La) Horde.

Sempre que (La) Horde se apresenta no Porto deixa um resultado impressivo indelével. O que aconteceu esta sexta e sábado à noite, no Teatro Rivoli, no Porto, não ficou aquém das expectativas anteriores. Todas as coordenadas que eram dadas ao público é que seria apresentado um programa transgeracional de quatro mulheres, três delas de gerações diferentes.

A veterana com honras de abertura do programa foi Lucinda Childs, norte-americana de 82 anos, considerada a rainha da dança pós-moderna. A obra que apresentou "Tiempo Vicino", criada em 2009, para a companhia francesa, respeita os cânones de um certo tipo de dança, ditada pelos cruzamentos, os padrões geométricos e o uso do tempo. De destacar a pulsante musicalidade da interpretação de "Son of Chamber Symphony", de John Adams, para oito bailarinos. Ainda que não tenham estado todos ao mesmo nível, o resultado é agradável, sendo a japonesa Aya Sato dona de uma performance delirante, pela precisão que se destaca em todo o programa.

Para o público português. a coreógrafa Tânia Carvalho, de 46 anos, é bem conhecida apesar da sua hesitação, permanente, em estar na frente de cena. Mas quando até Olga Roriz considera que esta é a única capaz de a fazer ver espetáculos, o público tem de se pôr em sentido.

"One of Four Periods in Time", com uma partitura eletrónica de Vasco Mendonça, traz uma coreografia coral em que a expressão exacerbada é tudo, como num trauma revivido. Tudo é demasiado lento, expressivo, com movimentos dilatados e muito marcante, tudo para que cada uma das pessoas possa absorver totalmente o que ela nos quer dizer, até ao mais ínfimo pormenor, como num quadro de Paula Rego.

Tânia Carvalho consegue respeitar a técnica, mas não se deixa consumir por esta, fazendo exercícios de virtuosismo impolutos. Ao dançar, uma coreografia dela a entrega tem de ser total.

Hiperssexualização em rosa unicórnio

Passado o intervalo, uma injeção de adrenalina, "Mood" de Lasseindra Ninja, mulher trans pioneira do "voguing" em França, a quem foi dada pela primeira vez uma companhia para trabalhar. Os clichés estão todos lá: há um palco despido, ausência de cicloramas ou grandes efeitos de luz, tudo é cru e hiperssexualizado. Há unicórnios e sereias rosa, macacões brilhantes, música altíssima a puxar pelos sentidos, mas, excetuando o vestuário inventivo e repleto de purpurinas, o vocabulário coreográfico torna-se redutor, como um desfile de poses sexuais, com a genitália e glúteos empinados a assumir o controlo da cena, num coletivo de corpos bem torneados.

Se é necessário cozinhar a catarse do espectador, também é necessário fazê-lo descer. Um dos momentos do programa é a comovente saída de "Mood", em que cada um dos intérpretes é despido (e vestido) em cena por outro bailarino. Nesse ato de entreajuda e de uma certa compaixão há mais poesia do que em toda a panóplia histérica anterior.

O coletivo do Ballet National de Marseille, todo vestido de branco, cordão de ouro ao pescoço, testosterona a exalar, entrega-nos a violência de "Lazarus", da irlandesa Oohna Doherty, os mesmos 36 anos que Lasseindra.

Originalmente esta secção era de um solo, o uso de música clássica transporta-nos de novo para Tânia Carvalho, quando se dilatam as ações coreograficamente, e a força anímica é uma potência impossível de segurar.

Um programa que abre uma janela sobre a história da dança das últimas gerações.