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"The White Lotus": Dinamitar a família, estourar o casamento

José Miguel Gaspar

"The White Lotus": a riqueza autoriza toda a podridão

Foto Direitos Rservados

Ricos e brancos num resort do Havai: a comédia humana é negra e hilariante.

Os sinais estão lá todos desde o princípio - o genérico anuncia-nos logo, a rasar por um papel de parede floral e pastoril, que todas as espécies vão apodrecer - e não se consegue transviar o olhar. Aos primeiros minutos já sabemos que alguém vai morrer (há um caixão a avançar para um avião) e sabemos ainda que um casamento se há de desfazer (a chacina será espetacular: um par casado de fresco vai sair, ao fim de uma semana, desquitado de toda a nobreza matrimonial). Depois: a série avança para trás, em flashback, para nos mostrar como tudo vai suceder em seis dias.

É o tema central de "The White Lotus", nova série de Mike White para a HBO: a decomposição da ética humana, em que a riqueza autoriza toda a mentalidade de podridão.

Debaixo do microscópio inclemente estão a família e o casamento e as férias de privilégio no Havai. Há uma família tradicional, com mãe dominadora workaholic (Connie Britton), o pai inseguro (Steve Zahn), a filha adolescente petulante (Sydney Sweeney), a amiga dela insolente (Brittany O"Grady), e o filho idiótico enfiado na Nintendo (Fred Hechinger). Junta-se-lhes o par de recém-casados em ilusão (Jake Lacy e Alexandra Daddario) e uma viúva rica inescrutável e carente que leva consigo a urna das cinzas da mãe (Jennifer Coolidge, impagável). Batem de frente, ricos e incônscios, com o staff do hotel e o intrépido gerente à beira de se despenhar no passado de alcoólico anónimo (Murray Bartlett).

A série toca as mesmas notas de "Parasitas" de Bong Joon-ho, que depenica a divisão de classes das suas personagens para nos oferecer fragmentos de empatia e compaixão por pessoas presas em padrões a que podem não escapar. Todos são contradições ambulantes, simultaneamente estereotipados e humanos, relacionáveis e discordantes. E assistimos a uma dissecação da cultura predominante, branca e rica, de uma forma sombria e burlesca, num olhar impiedoso de simpatia fulminante. O melodrama é de baixa fervura, será uma tragédia em certas dimensões, mas vem embrulhado numa tão inquietante comédia social de costumes que é hilariante.