Santo Tirso,

Vandalizada obra de Cabrita Reis, artista diz que "também é arte"

Delfim Machado

Obra sofreu ataque que partiu a pedra da escultura|

 foto Miguel Pereira / Global Imagens

Finalização feita pelo artista deixou Santo Tirso à beira de um ataque de nervos

Há 17 anos que estava assim, inacabada

Uma obra de Pedro Cabrita Reis - a reinterpretação de "um casinhoto tosco feito com tijolos", como o próprio classifica - foi vandalizada na madrugada passada, em Santo Tirso, depois de ter gerado um infindável debate. Ao contrário do que seria de esperar, o escultor e colecionador olha para o crime anónimo com "alguma ternura e absoluta compreensão", pois, diz, fez com que alguém tivesse experimentado uma forma de estar que aproximou a sua relação com a arte.

"Uma escultura para Santo Tirso" foi feita em 2001 a convite do escultor Alberto Carneiro e oferecida à cidade por Cabrita Reis. Esta semana, passados 17 anos e uma série de batidas a martelo, o lisboeta terminou a obra: em vez de um casinhoto tosco, a peça ficou um casinhoto tosco com buracos, erodido como se estivesse ferido com a passagem do tempo. Alguém decidiu acrescentar "feridas" à peça e deitou abaixo a parte da porta. A PSP de Santo Tirso registou a ocorrência, mas o autor pretende que ela fique assim: "Não é vandalismo; é manifestação de criatividade de alguém que não quis deixar de se associar ao processo artístico."

O ano do génio Reis

Pedro Cabrita Reis é conhecido por utilizar fragmentos e restos urbanos ou domésticos que converte em testemunhos de um particular universo quotidiano. E os seus trabalhos em tijolo primam por expor "feridas" na pele da obra.

Para ver grande parte das esculturas do artista em Santo Tirso, basta ir ao Museu Internacional de Escultura onde é inaugurada, terça-feira, uma exposição com trinta obras da sua autoria, quase todas inéditas. Ou passar no pontão do rio Tejo e ver "Central Tejo", instalação que ofereceu à cidade a propósito da inauguração de "Germinal", mostra com obras da sua coleção privada.

São dois dos exemplos que fazem de 2018 o ano de Pedro Cabrita Reis, depois do reconhecimento internacional por que passou na década de 90. Esta semana, o "The New York Times" dedicou uma página ao português, descrevendo-o como "um dos mais aclamados artistas de Portugal". Grande parte do mérito está na coleção que reuniu entre 1995 e 2005. São quase 400 obras de 74 artistas que a Fundação EDP comprou para, agora, mostrar ao público no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa.

"É o tesouro de uma geração mais nova e fico muito satisfeito por acrescentar visibilidade aos artistas que a compõem. As coleções não se destinam a ficar guardadas num espaço qualquer, têm de ser vistas", ilustra Cabrita Reis. Isso, no fundo, é a arte em si mesma. "Serve para transformar a relação das pessoas com o Mundo". E foi precisamente o que aconteceu em Santo Tirso esta madrugada. v

Pedro Cabrita Reis nasceu em Lisboa em 1956 no seio de uma família de classe média e formou-se em Artes Plásticas e Pintura na Faculdade de Belas-Artes. Em 1979 dedica-se a tempo inteiro à Arte e, em 1994, começa a colecionar as 388 obras de 74 artistas nacionais que vendeu, em 2015, à Fundação EDP. Participou em exposições internacionais como Kassel 92, São Paulo em 94 e 98, Veneza 95 e 2003 ou Lyon 2009. O seu ateliê é junto ao bairro de Marvila, em Lisboa.