Cultura

Ana Luísa Amaral: "Preciso da minha língua à minha volta"

Ana Luísa Amaral: "Preciso da minha língua à minha volta"

25 anos após a publicação do seu primeiro livro, Ana Luísa Amaral acaba de lançar um novo livro de poesia, "E todavia". Ao JN, a poetisa desconstruiu a sua nova obra, a sua visão da arte poética, e as suas reflexões sobre a atualidade do país.

Suponhamos que quando vemos os livros nas livrarias, estes têm na contracapa um botão, onde quem carrega pode ouvir uma sinopse da obra pelo autor. Aí como descreveria este novo livro "E todavia"?

O título é lido, por vezes, como "E toda a via". Isso conduz-nos para aquilo que existe neste livro, que é haver sempre várias vias. Tudo é 'poetável', desde o amor, passando pelo arroz de tomate, ou às ervilhas com ovos escalfados (risos). Tudo, desde as temáticas até ao próprio recurso de versificação. Eu tanto posso usar sonetos neste livro, como quadras, decassílabos ou alexandrinos. Diferentes ritmos, diferentes músicas, diferentes melodias. São vários registos que podem ir da reflexão meta poética até à reflexão política e cidadã, ou seja, tudo aquilo que tem a ver com o mundo.

Há uma estrofe neste livro, no poema "Das alcalinas soluções ou brilhos" em que se lê "a paisagem doente da cidade, /o coração pendente/ de uma alcalina solução/ que se decante/ em vida:". Por acabar com dois pontos no final, trata-se de um desafio ao leitor para completar o poema?

Esse poema acaba com dois pontos porque abre para o poema seguinte. É claro que também está assim para se abrir ao leitor, embora para mim, quando se escreve, não se está logo a pensar no que o leitor possa fazer. Nós escrevemos porque precisamos de escrever. Depois, para a montagem do livro é que se pensa no público. A escrita dos poema é uma coisa, a montagem do livro é outra.

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E nesse poema seguinte, o "Pequena ode, em anotação quase biográfica", diz "Bom dia, minha filha, igual a girassol,/ quantas mais vezes te direi bom dia,/ olhando o corredor,/ tu, já não de baloiço, mas de amor/ e pura filigrana, / eu, quase entardecendo". Enuncia-se aqui um medo explícito da morte e a nostalgia do passado?

Claro que sim, e uma espécie de intertextualidade entre poemas que escrevi no passado, dedicados à minha filha. E obviamente que hoje, aos 59 anos, tenho uma maior consciência da morte. Essa consciência existiu sempre. Esse da morte vem-me desde pequena. Eu tento afastá-lo, mas todas as noites eu tenho o terror da morte, mais até do que o terror do envelhecimento. Tenho esse terror do desaparecimento, do momento da morte. O verso não diz, felizmente, "anoitecendo" (risos). Diz "quase entardecendo" porque eu também não me sinto velha (risos).

É quase então como se os seus livros todos fossem um único poema contínuo...

Acho que sim, que eles se vão interligando. Regresso às temáticas que utilizei desde o início, passados estes 25 anos [desde que publicou o primeiro livro: "Minha Senhora de Quê"]. É por um lado um contínuo que se vai desenrolando e tem certos pontos de sustentação comuns, mas é também um devir, um transformar. É como a própria vida.

No seu livro anterior de poesia, "Escuro", o título originalmente esteve para ser "Por que outra noite trocaram o meu escuro", que é um dos poemas da obra. Neste "E Todavia", o nome inicial foi esse, ou houve novamente uma indecisão?

Sim, sim, exatamente (risos). E este novo livro era para se ter chamado inicialmente "O som que os versos fazem ao abrir".

E porque é que mudou outra vez o título?

Não sei. Primeiro achei que o título seria muito longo. Eu sou muito hesitante quanto a títulos. E queria para este livro um título que fosse forte, e para mim, mais abrangente e ambivalente...

Porque o "E todavia" deixa uma abertura a uma certa reticência...

Precisamente. Deixa uma reticência, uma suspensão e pode ser lido de várias maneiras. "E todavia" há escuro. "E todavia" há luz. "E todavia" há esperança. "E todavia" estamos vivos. Toda a expressão abre essa possibilidade. Aliás, a capa do livro é consentânea com isso. Temos uma paisagem um pouco mais escura, mas com uma réstia de azul no céu. E na contracapa o azul abre-se mais. Pode ser lido das duas maneiras. O que acontece neste livro é um pouco aquilo que digo nele, na "Pequena fábula da mortalidade": "E lava os dentes como bom mortal". Isto para mim personifica estes "senhores do mundo" que o que fazem é tentar usar a depressão para opressão. Deprimir para oprimir. E afinal são tão mortais como qualquer um de nós. Talvez só, como eu digo no mesmo poema , "outro virá, noutro espelho em função/ menos ou mais acesa./ Só a erva, feliz por ser erva, ficará,/ não se sabendo ela também mortal". No fundo, é sobre a mortalidade e a vacuidade que é acharmos que estes que agora nos dominam e governam, as industrias financeiras, os bancos. Esta vergonhosa cumplicidade pornográfica entre a banca e o Estado, que se comportam como se o planeta não pudesse acabar. Pode acabar. Pode ser destruído, para nós, espécie humana. É como se a nossa espécie não fosse, toda ela - ricos, pobres, todos - mortal e extinguível.

Ao longo de todo o livro nota-se muito a presença de muitas referências à natureza. Lê-se "sol", "pássaro", "pinheiro", "folha" em muitos dos poemas. Há nele esse alerta de que fala, de reaproximação do ser humano à natureza?

Sim. Este livro talvez tenha essas referências mais presentes, do que os outros livros anteriores. Acho que tocou num aspeto muito interessante e em que eu ainda não tinha pensado. Há neste livro mais poemas de fusão entre o humano e o não humano e a própria natureza. Outros livros eram mais virados para temáticas domésticas, para o lírico ou para o sublime.

A presença da natureza, preponderante neste novo livro, deve-se a uma certa solidão rilkeana, alcançada com o decorrer da sua experiência, fazendo com que olhe agora para a natureza com novos olhos?

É possível que sim. Os anos vão passando. A natureza sempre esteve presente, mas antes era aproveitada mais em meu proveito poético. Aqui neste livro eu talvez a tenha deixado falar mais. Essa ideia da preocupação rilkeana é muito boa. Sim, estou a pensar num poema. Nem por acaso, publiquei uma tradução do Rilke, "A Pantera", que é um poema que me comove muito. Essa preocupação real com aquilo que está a acontecer à nossa volta, sempre esteve presente, mais ou menos, na minha poesia. Este livro foi organizado a partir do final do ano passado, ainda nos Estados Unidos, onde vivi no semestre de outono. E vivi numa zona rodeada de árvores. Uma zona muito bonita e muito solitária também. É bem possível que isso tenha tido alguma importância nesta minha obra, sim.

Existem as inspirações intelectuais e as inspirações empíricas que despertam a criatividade. E é curioso sentir o que está na génese dos poemas...

Sim, sim. E essa ligação do nosso corpo, e do corpo do outro, com a experiência do quotidiano. É como diz o último poema deste livro, "como pequeno botão que se perdeu/ desaparecido em brecha de madeira/ e tanto de roupão como de flor /pequena". E isso aconteceu de facto. Eu tinha perdido um botão de um roupão e essas coisas despertam depois a escrita de um poema. Essa fusão entre o chamado mundo natural e o mundo humano, faz com que eles nunca estejam separados. Eu sem luz não sou nada. Nós precisamos da luz para a fotossíntese e do ar para respirar. Por isso é que escrevi num poema desta obra, que "mesmo nesse desmando e tão violento curso / que é o mundo/ ainda assim/ esta pequena anotação / de abrir os olhos e dizer bom dia".

E enquanto leitora o que é que lhe atrai mais num livro?

A beleza das palavras, mais do que a história. A minha primeira experiência a esse nível foi quando li "O Cavaleiro da Dinamarca", da Sophia de Mello Breyner. Tinha nove anos e quando li esse livro fiquei com 39 de febre. É a beleza das palavras. É a forma como as palavras estão ali organizadas. Não me importo de repetir a leitura de um livro, por causa do deslumbramento com a palavra. É a capacidade de evocação de imagens e mundos que o livro me provoca. É isso que eu mais aprecio num livro. Muitas vezes estamos a ler um livro e ficamos alheados do mundo. Isto significa que entrámos num outro mundo. Muitas vezes até é difícil sair daquele mundo onde se entrou. Um bom livro faz isso. Faz-nos sair do universo mais próximo e depois, é-nos até doloroso sair dali. Isto acontece-me inclusive até com os sonhos. Há sonhos que me acompanham, que são tão reais e me acompanham pela vida, pelos dias. Não são reais. Foi um sonho que tive. E um livro pode fazer isto.

Ou seja, o que busca num livro é, mais do que a intelectualidade, o prazer...

Claro. É a paixão. Tal como na escrita da poesia, se não houver paixão, não vale a pena.

E quais os livros da sua vida?

Isso é muito difícil responder. "O Cavaleiro da Dinamarca" é o primeiro. O "Anna Karenina", também. É complicado responder. São tantos. Todo o Shakespeare. Os sonetos de Camões. Blake. Todo o Blake.

E o poema da sua vida qual é?

Isso é muito, mas muito mais difícil de responder. Não posso dizer o poema da minha vida, mas um dos poemas da minha vida é de William Blake, "Augúrios da inocência", em que começa assim: "To see a World in a Grain of Sand/ And a Heaven in a Wild Flower" e mais à frente diz "Some are Born to sweet delight/ Some are Born to Endless Night", ou seja, faz aquilo que eu gostaria de ser capaz de fazer: juntar o conhecer mais puro poético à preocupação cívica. Esse poema é absolutamente extraordinário. Há uma poeta argentina, de quem eu gosto muito da poesia, a Diana Bellesi. E ela diz uma coisa engraçada. Diz que a poesia faz o que faz o colibri. O colibri é o único pássaro que voa para trás e para a frente. E ela diz "a poesia, contrariamente ao romance, também faz isso". Anda para trás e para a frente. E depois ela acaba essa frase a dizer: "eu gostaria que a minha poesia fosse isso, que entrasse na cabeça e no coração". E eu sinto isso também.

E é difícil ser poeta em Portugal?

Eu não escolhi nada. Isto veio comigo desde que me lembro. Embora o meu primeiro livro tenha sido publicado, e eu não me arrependo nada, só quando tinha 33 anos. Por um lado, leva-me para duas questões: a escrita. A escrita de um poema. Eu sempre escrevi poesia. E para mim isso não é nem fácil, nem difícil. É uma condição. Deduzo, numa segunda visão, que me está a perguntar por algo que tem a ver com uma certa aceitação de mercado. Todos os mecanismos que rodeiam a própria escrita do poema. São coisas diferentes. Eu escrevo porque escrevo, porque preciso. Depois, é difícil publicar? Com o meu primeiro livro, tentei com 3 editoras na altura. Nunca publiquei livros em edição de autor e também não sentia essa necessidade de publicação formal. Apareceu-me no início uma pequena editora. O livro foi bem recebido e tal. Felizmente nunca tive dificuldades. Isto do ponto de vista de publicação. Já do ponto de vista de vendas, a poesia vende o que vende. Vende muito pouco. Eu não vivo disto, não posso nunca viver disto. Jamais isto daria para viver. Nunca a poesia esteve sujeita às leis de mercado como está o romance. Um Prémio Nobel de Poesia não vende como um Prémio Nobel de romance. Estou a pensar em todos os romancistas, inclusive o nosso, um grande orgulho para nós, o Saramago. O Saramago vivia, a dado momento, da sua escrita. Há romancistas que vivem daquilo que escrevem. Os poetas, que eu saiba, não conheço nenhum que viva daquilo que escreve e ainda bem. Assim há mais liberdade. A poesia é mais livre do que o romance. Por outro lado, do que eu gostava era de viver da escrita, sim, mas paciência. A poesia não é uma profissão. É uma paixão. E eu sou amadora, no sentido em que amo. "Transforma-se o amador na cousa amada" [poema de Camões] (risos). A cousa amada é a palavra (risos).

Por fim e utilizando outro dos seus textos deste novo livro, o poema "Existexuais definições", devolvia-lhe a questão que coloca no primeiro verso: "Mas o que quer dizer ser português?"

Não sei, por isso é que pergunto (risos). Esse poema é completamente louco (risos). Não sei o que é ser português, mas o que eu sei é que sou de Portugal. Nesse poema falo desse traço que nos é comum, esta resignação às coisas, que nos dá também uma doçura que os nossos irmãos do lado não têm (risos). O 25 de abril faz-se sem sangue. E Espanha passa por uma guerra civil sangrenta. De uma coisa eu estou certa: eu nunca deixarei o meu país. Para mim é uma dor enorme ver os nossos jovens nesta nova onda de emigração. Não há nenhum português neste momento que não conheça alguém que não tenha emigrado. Penso que ninguém sai do seu país, quando emigra, por querer. É gravíssimo, de uma inconsciência e de uma crueldade, quando nós vermos isso a ser incentivado por um Governo. Quando alguém do Governo diz que o nosso destino sempre foi o mar e implicitamente, a emigração. É muito grave porque significa que se prescinde do povo. E o que é um país sem um povo? É um naco de terra. Eu nunca sairei de Portugal, mesmo com todos os seus defeitos. Nós somos responsáveis por este Governo porque votámos nele. Eu não votei (risos) mas houve quem votasse nele. Este é o meu país e o meu espaço e até sinto uma obrigação ética e cívica de lutar nele e de tentar fazer alguma coisa por ele. É um país pequenino mas é o meu país. É como é, mas eu continuarei a denunciar aquilo que eu vejo como injusto e cruel. E preciso da minha língua à minha volta, muito muito, muito.

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