Cinema

Ana Sofia Fonseca: "Cesária Évora era uma diva de carne e osso"

Ana Sofia Fonseca: "Cesária Évora era uma diva de carne e osso"

Ana Sofia Fonseca fala-nos do documentário sobre a cabo-verdiana, já nos cinemas. Na sua estreia na realização, a jornalista e escritora destaca o legado musical da "diva de pés descalços".

Jornalista e escritora, Ana Sofia Fonseca estreia-se na realização de cinema com o magnífico documentário "Cesária Évora", que nos mostra algumas facetas menos conhecidas da lendária cantora cabo-verdiana. O filme já está nas salas de cinema e é a não perder.

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Ainda se lembra da primeira vez que ouviu uma canção da Cesária Évora?
A primeira vez não me lembro, ainda era miúda. Mas lembro-me de uma vez me ter marcado, já conhecia bem a Cesária. Estava em Roma a estudar. Estava com umas amigas, de madrugada, a apanhar boleia, e parou um senhor italiano, que ia a ouvir Cesária Évora. Ele não sabia nada da Cesária nem de Cabo Verde, mas trauteava perfeitamente o "Sodade". Eu já estava em Itália há alguns meses, mas o senhor fez questão de nos levar aos sítios mais turísticos, sempre a ouvirmos Cesária Évora.

Sei que tem uma casa em Cabo Verde. Ainda conheceu a Cesária Évora?
O meu marido é de lá. Temos uma casa no centro do Mindelo, perto da casa da Cesária. Mas nunca conheci a Cesária pessoalmente. Ainda que agora, depois de tantos anos a ver tantas horas por dia, tantas imagens dela, parece que é uma pessoa muito próxima. Sinto como que a tivesse conhecido desde sempre, mas na verdade nunca estive com ela.

É mais difícil ou mais livre fazer um filme sobre alguém que já não está connosco?
Não nos dá mais liberdade, dá-nos mais responsabilidade. Não podemos desvirtuar o que aquela pessoa foi. Alguém já me disse que eu falava da Cesária no presente. Normalmente isso acontece-me, mas não é propositado. Mas de alguma forma ela permanece entre nós, nem que seja pela obra que deixa. E também pela sua forma de vida. A Cesária não conhecia expressões como empoderamento feminino ou igualdade de géneros, mas vivia essas lutas no seu dia a dia. E isso também deixa um legado que é muito importante.

Quantas horas de material é que recolheu para fazer um filme de hora e meia?
Muitos teras. Começámos com nada. Ao fim de mais de um ano eu não tinha nada de interesse. E acabámos com muitos teras, muitos discos externos. Não sei precisar quantas, mas muitas centenas de horas.

Como é que se foi o processo de montagem?
Foi moroso. Estávamos a montar e ia chegando material, que nos fazia mudar, não digo o rumo do filme, mas alterar muitas coisas e pensar de outras formas. Fui semeando a procura e muitas vezes as coisas chegaram três e quatro anos depois. Trabalhei a par e passo com a Cláudia Rita Oliveira, a discutir quase frame a frame. Mas foi muito enriquecedor, também. Cada conquista era uma conquista.

De onde veio a maioria do material?
Por vezes alguém que se lembrava que tinha por lá algumas cassetes. Ia busca-las e digitalizá-las a correr. Muitas vezes as cassetes estavam guardadas em caves ou em sótãos, dentro de sacos de plástico. Mas muitas vezes nem se descobria nada.

Em Cabo Verde há o perigo das novas gerações esquecerem a Cesária?
Cabo Verde devia aproveitar melhor a memória da Cesária. Não nos podemos esquecer que foi a Cesária que pôs a morna nos ouvidos do mundo. E se a morna é hoje património imaterial da Humanidade, é graças à Cesária. Há um núcleo museológico, uma exposição no Palácio. Mas um turista que vá a Cabo Verde fica sem saber muito bem onde procurar coisas da Cesária. E depois temos a casa da Cesária.


Há um aproveitamento do género casa-museu?
Não, é a casa da família. Do filho e dos netos. Mas é verdade que poderia dar um excelente Museu Cesária Évora. Até porque o grande sonho da Cesária foi ter aquela casa. Ainda este ano, no verão, um neto fez anos e eu fui lá a casa e um grupo de franceses que andavam a correr mundo foram à procura da casa da Cesária Évora. Estava imensa gente na varanda, a assar carne e a ouvir música. Mandaram-nos subir e acabaram a comer salsichas e a beber vinho na casa da Cesária. Estavam incrédulos.

Há algum plano em marcha para a aproveitar melhor?
Aquela casa tem um potencial gigante. A família e o produtor e amigo que toma conta das coisas gostariam de fazer lá um museu e uma escola de música. Não sei se será possível, mas seria interessante dar uma nova vida aquela casa.

Parece que ela tinha sempre a porta aberta para quem quisesse entrar...
Isso é bem real. A Cesária era uma mulher extraordinária, a história dela é inspiradora. Não só porque nos mostra que a vida de qualquer um pode mudar a qualquer instante, independentemente de onde se vem, mas também pela sua própria forma de estar na vida. Hoje ouvimos muitos discursos inflamados. A Cesária não os poderia fazer, mas punha essas ideias na prática. No seu dia a dia era um exemplo, era contra todos os preconceitos.


Há alguma história curiosa que tenha para contar e que não esteja no filme?
A primeira coisa que ela fez quando comprou a casa foi pôr uma panela no lume, como o Piroc, seu mordomo, confidente e grande amigo dizia, para ter sempre comida para quem chegasse. E à sua mesa sentava presidentes e os mais marginalizados da sociedade, sem qualquer diferença. Era uma casa de porta aberta. Aliás, em São Vicente sabiam que a Cesária estava na ilha, tinha chegado de tournée, quando a porta estava aberta. E levava presentinhos para toda a gente.

Já mostrou o filme em Cabo Verde?
Ainda não. Estamos a tentar. Desde o início que gostava de mostrar o filme lá, para toda a gente, na rua. Para a voz da Cesária voltar a ecoar nas ruas do Mindelo. E de forma gratuita, porque a Cesária era do povo. O velório da Cesária foi feito no Palácio Presidencial, algo a que ela não iria achar muita graça, com discursos políticos ainda por cima. O Tchalê, um pintor muito conhecido de Cabo Verde, levanta-se e diz algo como "este palácio pela primeira vez é do povo". A Cesária era do povo e continua a ser.

O sucesso nunca a mudou...
Nem nunca a vida à volta dela muda drasticamente. Tudo muda à volta dela, menos ela, na sua essência. É claro que muda a forma de vida, porque passa a ter dinheiro. Mas na verdade, na verdade, ela troca tudo por uma cachupa com os amigos. Hoje, quando se assinala o aniversário da morte da Cesária, há uma coisa lindíssima, fazem o que chamam comida de anjo, a comida que se dá aos pobres.

Como é que foram as reações às primeiras projeções do filme?
Já tive oportunidade de mostrar o filme a diferentes públicos. O filme estreou nos Estados Unidos e esteve em vários festivais. Em Cracóvia havia pessoas que eram completamente fãs da Cesária. Em Sheffield ninguém a conhecia mas tínhamos a sala cheia na mesma. Nos Estados Unidos houve uma história muito engraçada de um senhor que só soube que era cabo-verdiano dias antes da mãe morrer, há uns meses. Estava a descobrir Cabo Verde através da música. O senhor chorou imenso no filme.

E aqui em Portugal?
No Indie foi uma plateia muito calorosa. Toda a gente conhecia a música da Cesária. Ainda há dias pessoas que até estão nos agradecimentos disseram-me que pensavam que sabiam tudo sobre a Cesária mas que o filme lhes tinha mostrado alguma coisa de novo. A Cesária era uma mulher muito rica, em toda a aceção da condição humana. Era uma diva de carne e osso. É isso que a torna tão especial. Que a aproxima de todos nós.

No seu caso, onde acaba a jornalista e começa a cineasta?
Estou a descobrir. É um processo. Uma pessoa não acorda um dia e diz que é isto ou aquilo. As caixinhas fazem-me muita impressão. Eu gosto de contar histórias. E adoro cinema. Gostava de fazer outro filme, documental, já. Tenho várias histórias que quero contar através do cinema.

O cinema também é muito diferente da literatura, muito mais solitária...
Eu gosto muito de trabalhar este casamento de linguagens. As imagens, o áudio, os silêncios, o espaço. Gosto muito do espaço, e do tempo. Gosto muito do tempo que o cinema me permite, do recuo, da reflexão. É uma excelente forma de contar histórias. E o cinema permite outra coisa. Enquanto espetador, a magia da partilha das histórias. Estamos ali todos naquela sala a partilhar juntos a mesma história. E isso é fascinante.

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