Cinema

Arábia Saudita luta pela igualdade de direitos das mulheres

Arábia Saudita luta pela igualdade de direitos das mulheres

Num país que esteve 35 anos sem salas de cinema, a primeira edição do Red Sea International Film Festival dá sinais positivos de mudanças sociais

A primeira edição do primeiro festival de cinema que se realiza na Arábia Saudita, o Red Sea International Film Festival, está já em velocidade de cruzeiro, na cidade de Jidá, banhada pelo Mar Vermelho, que separa o imenso país da Península Arábica, berço do islamismo, do continente africano, aqui mesmo ao lado.

O mote para o festival, bem evidente nos cartazes que circundam o seu centro nervoso, no interior da Cidade Velha, património mundial da UNESCO, é "ondas de mudança". Uma promessa aparentemente já em marcha, nomeadamente no que diz
respeito aos direitos da mulher, uma das grandes preocupações, e questões a colocar, por parte de quem chega do ocidente, nomeadamente da Europa ocidental.

Uma conversa com Haifaa Al-Mansour, a primeira mulher saudita a realizar um filme, e de que vimos já este ano em Portugal o seu mais recente trabalho, "A Candidata
Perfeita", sobre uma jovem que, apesar de tudo e de todos estarem contra ela, decide candidatar-se às eleições do seu município, confirmou as primeiras impressões de quem vem com um olhar de fora: apesar de ainda haver muito a fazer, já há vários progressos no que diz respeito à igualdade de direitos das mulheres.

A dicotomia entre o "velho" e o "novo", entre a tradição e a modernidade, joga-se aqui como em qualquer outra parte do mundo, embora com os condicionalismos que se conhecem em estados não laicos como a Arábia Saudita e outros países árabes.

O centro de imprensa e algumas das salas de cinema que servem o festival localizam-se na chamada Cidade Velha, onde estão preservadas as habitações antigas da cidade e onde se encontram alguns centros culturais, velhas manufaturas ainda em funcionamento e livrarias, em contraste com as largas e modernas avenidas, sempre cheias de automóveis, de dia e de noite, numa cidade que parece nunca parar para descansar.

Mas é sobretudo no modo de vestir, sobretudo do sexo feminino, que se sente a diferença entre quem tem mais idade e as novas gerações, sem problemas, pelo menos evidentes, em descobrir o rosto e o cabelo e em ter uma atitude mais moderna.

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Também as nossas colegas ocidentais não têm tido qualquer problema com o seu vestuário e o seu rosto completamente descoberto, nem se sente, por parte dos sauditas, qualquer incómodo em relação a essa situação.

O que se sente de qualquer forma e em todo o lado, no quadro do festival ou fora
dele, é uma enorme gentileza e vontade de resolver os nossos problemas logísticos mais básicos, de quem se vê, de um momento para o outro, numa realidade que não é de todo a nossa.

Estas ondas de mudança que o festival lança, encontram no cinema um sinal positivo. Não só o cinema saudita se apresenta aqui com uma forte pujança, tendo por de trás uma indústria já em construção, como são as realizadoras precisamente quem parece liderar o movimento.

Exemplo disso é o filme "Becoming", em exibição esta quarta-feira à noite, constituído por cinco histórias dirigidas por cinco realizadoras diferentes.

"West Side Story" banido

Esta situação de um cinema emergente é para muitos novidade, num país que, imagine-se, esteve 35 anos sem salas de cinema! Hoje, é a cadeia Vox que instalou já um largo conjunto de salas em vários pontos do país, em multiplexes de estilo ocidental situados em vastos centros comerciais e onde podem ser vistos - depois
de visionados pela censura existente - títulos como os que temos atualmente em
exibição em Portugal, como "Casa Gucci", "Encanto" ou "Residente Evil: Raccoon City".

Escusado, no entanto, será procurar "West Side Story", a nova versão do musical clássico, assinada por Steven Spielberg. O filme foi banido no país, como aliás nos Emiratos Árabes Unidos, enquanto em Omã e no Catar foi a Disney, distribuidora mundial do filme, a não aceitar os cortes sugeridos pela censura local.

Em causa estará sobretudo a personagem transgénero de Anybodys, interpretada pelo ator não-binário Iris Menas. Ainda há muitas ondas de mudança por chegar.

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