Documentário

Artéria histórica de Lisboa em filme

Artéria histórica de Lisboa em filme

Documentário "Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos" já nas salas

Cada localidade tem as suas ruas, avenidas e praças de referência, cuja toponímia reflete datas, acontecimentos e personalidades que ali fizeram história. Lisboa, pela sua dimensão e estatuto de capital, poderia ver a sua história contada através das placas que assinalam os nomes das suas principais artérias.

Foi o que pensou Renata Sancho, realizadora e montadora, que nos propõe, em "Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos" uma história daquela avenida, que atravessa não só uma boa parte da cidade como da sua própria história, devendo o nome atual a Cândido dos Reis, um dos organizadores militares da revolta de 5 de outubro de 1910, encontrado morto na véspera do golpe republicano.

Ao JN, a realizadora explicou porque decidiu fazer um documentário sobre este tema. "Conheço bem a avenida, sobretudo Arroios e Anjos. Habitei lá até aos 12 anos, depois mudei-me para perto da Praça do Chile. Há cerca de 10 anos voltei a habitar na avenida, curiosamente no prédio onde nasci."

Renata Sancho não foi insensível à importância histórica da Avenida, no contexto da cidade. "É uma das artérias mais importantes de Lisboa, ligando o aeroporto ao centro da cidade. A sua construção acompanhou o crescimento da cidade para Norte através de quintas e hortas. Quando foi inaugurada, em 1908, chamava-se Avenida D. Amélia. Nesta avenida decorreram os grandes comícios republicanos e a grande manifestação do 1º de Maio de 1974."

Segundo a realizadora, as mudanças na Avenida refletem as mudanças que têm ocorrido na cidade. "Sobretudo nos últimos anos a avenida tem vindo a transformar-se e está em plena renovação e recuperação de alguns edifícios importantes", diz-nos. "Desde que fechei a montagem, em Agosto de 2018, muitos locais deixaram de existir e restam apenas alguns estabelecimentos ainda no ativo. Tem sido uma transformação muito rápida, que está acontecer um pouco por toda a cidade de Lisboa e igualmente no Porto."

Hoje em dia, a Avenida Almirante Reis é um reflexo da diversidade da cidade de Lisboa e do país no geral. "Esta avenida sempre foi um eixo de diversidade, seja pela fixação de gente de todo o país durante as obras de construção de Lisboa nos anos de 1950 a 1970, para trabalhar nas obras públicas do metropolitano ou da construção da ponte sobre o Tejo, ou dos bairros de Alvalade e avenidas novas."

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Esta diversidade acentuou-se mesmo após a revolução de 1974, primeiro com o regresso de retornados dos países africanos. Segundo a realizadora, "é um eixo onde a comunidade chinesa nos anos de 1990 abriu muitas lojas e restaurantes. E mais recentemente encontram-se etnias de todo o lado, Brasil, Rússia, Síria, Nepal, fruto do mundo global em que vivemos. Segundo a junta de freguesia são cerca de 99 nacionalidades que habitam por aqui. Tudo convive porta sim, porta sim, sem grande alarido", explica Renata Sancho.

"Houve muitas coisas que ficaram de fora, porque esta avenida tem cerca de dois quilómetros e meio de extensão e 269 números de porta", continua a realizadora. "Nem tudo me interessava registar e houve uma tentativa de rimar locais entre o arquivo e o presente. Por exemplo, nunca quis filmar o Cinema Império na atualidade, apenas usar arquivo, por razões simples relacionadas com a ocupação atual do cinema. Houve espaços locais que não autorizaram filmagem, outros que não são acessíveis à câmara por diversas razões."

Agora que o filme está nas salas de cinema, Renata Sancho tem um desejo: "Espero que haja alguém que reaja às imagens da manifestação do 1º Maio 1974 e comece a gritar palavras de ordem, voltando a dar-lhe o som que o tempo fez desaparecer. Este filme ter tido a oportunidade de estrear em sala a 3 de Outubro, 109 anos desde o discurso do Almirante Reis que é lido no filme, é por si um acontecimento."

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