Cultura

Artesanato minhoto reinventa-se para sair da crise

Artesanato minhoto reinventa-se para sair da crise

Em estado terminal há poucos anos, o artesanato "made in Minho" operou uma transformação milagrosa. A chegada de novos profissionais e a aposta no design explicam o inesperado ressurgimento.

A meaçado pela importação de produtos chineses e quase esquecido pelos próprios municípios, o artesanato do Minho encontrava-se exangue há menos de uma década.

Não que o galo de Barcelos, os lenços dos namorados ou os bordados de Viana do Castelo e Guimarães tenham deixado de fazer parte da identidade afetiva da região, mas a ilusão de um futuro em que só a alta tecnologia teria lugar fez relegar para segundo plano a aposta na tradição.

Em poucos anos, o cenário transformou-se. Pressionados pelo encerramento de fábricas, muitos desempregados encontraram no artesanato a forma de subsistência ou, pelo menos, "de angariar mais algum ao fim do mês", como explica Mário Coutinho, um antigo pintor agora convertido à produção de galos de Barcelos.

Se a chegada de novos intérpretes ao meio não causa surpresa - "em cada minhoto, há um artesão", explica a artesã Júlia Ramalho -, mais inesperada foi a inflexão promovida pelos municípios. Se Barcelos povoou a cidade com réplicas do galináceo, para que não subsistissem dúvidas quanto à origem do dito cujo, outras terras logo trataram de seguir-lhe os passos, mesmo que a legitimidade histórica da pretensão deixe muito a desejar.

"Como portugueses que somos, cada um quer ter o seu quintalzinho", sustenta Teresa Costa, líder da Associação para o Desenvolvimento Regional do Minho, que exemplifica isso mesmo com o título de "Capital do lenço dos namorados", promovido por Vila Verde. "Os lenços são do Minho e não de nenhuma terra", diz.

O papel do design

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O apoio autárquico e a ação da cooperativa Aliança Artesanal fizeram com que estes panos artesanais com os quais as mulheres procuravam captar a atenção dos apaixonados se transformassem no centro de uma estratégia variada de marketing.

Das mãos da dúzia de artesãs da cooperativa e das dezenas de formandas são criados produtos distintos como bolachas, bálsamos, chocolates ou licores. Mas há mais: foram estabelecidas parcerias com marcas como a Vista Alegre ou a Lameirinho no sentido de criarem linhas de produtos relacionados com Vila Verde e a temática do amor. "Todos teremos a ganhar se apostarmos num produto diferenciador", argumenta Júlia Fernandes, líder da "Aliança" e vereadora da Cultura do município.É no domínio do design que mais se tem sentido a mudança, o que, segundo Paula Isaías, coordenadora da cooperativa Aliança, permite que o artesanato "chegue a novos públicos".

Docente e designer do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, Cristiana Serejo vê como "positiva" a procura de novas soluções estéticas, as quais não colidem com a essência da arte. "As novas formas devem ser consideradas como uma continuidade e não uma ruptura", considera, apontando "o papel estratégico do design não só como mediador nas novas soluções, mas, também, como educador". O Galo de Barcelos, por exemplo, necessita, segundo a responsável, de "criar novas soluções de comunicação para os contextos e ambientes em que circula".

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