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Artista argentina cria diário sobre a pandemia com um final "mágico" no Porto

Artista argentina cria diário sobre a pandemia com um final "mágico" no Porto

Julia Cosimi Cannata foi "apanhada" pelas fronteiras fechadas e o confinamento mundial em meados de abril do ano passado. A pandemia trocou-lhe as voltas: ficou alguns meses retida em Espanha e depois mudou-se para o Porto. A aventura foi documentada num diário, que deu origem à novela gráfica "Zarpado".

À semelhança do que aconteceu a muitos viajantes, a covid-19 não lhe facilitou os planos que tinha para 2020. Julia Cosimi Cannata, artista natural de Córdoba, na Argentina, estava preparada para se mudar para Essaouira, Marrocos, no início de abril. Contudo, o encerramento das fronteiras obrigou-a a permanecer na casa dos tios, na Galiza, em Espanha, onde a frustração de planos e sonhos adiados, projetados para aquele ano, a invadiram. A argentina de 32 anos decidiu, por isso, criar um diário da pandemia. Para além de aliviar parte da carga emocional que sentia com o confinamento, documentar a vida em textos e ilustrações permitiu criar um registo de um momento histórico pessoal e do Mundo. "Ajudou-me muito, porque forçou-me a viver dia a dia e quando isso acontece, a ansiedade dos tempos incertos quase desaparece", explica ao JN.

O ambiente em Espanha ajudou. Se inicialmente o recato exigido pela covid-19 foi quase forçado, ficar em casa de familiares numa aldeia de Lugo tornou-se o sítio ideal, para lidar com o redemoinho de pensamentos. "Descobri que era uma pessoa que precisava de planear e tinha de aceitar a realidade [pandemia] e voltar a ficar maravilhada pelas coisas mais simples", conta, como fazer jardinagem, correr na floresta ou estar apenas em silêncio. Quando a pandemia se expandiu pelo Mundo, Julia estava à procura de uma "casa" e o único lugar onde encontrou a paz e o conforto foi em Marrocos. Assim que a viagem foi cancelada, pareceu que o chão lhe fugiu debaixo dos pés. "Num dos dias, chorei sentada na sanita, agora rio-me quando me recordo dessa imagem de mim própria".

A importância que a artista dá aos lugares acabaria por definir o futuro do próprio diário. Após a primavera passada em Espanha, com a redução do número de casos do novo coronavírus e a abertura dos países ao turismo, a argentina ponderou viajar novamente. África continuava a ser uma opção fora do baralho, pelo que o Porto, onde já tinha estado, pareceu ser um destino seguro durante a pandemia. "Lembrei-me que quando visitei a cidade por duas vezes tive o pensamento: «eu podia morar aqui»", afirma. "Um refúgio pode ser qualquer coisa que te faça sentir segura e bem acolhida, o Porto é isso para mim". No início do verão apanhou um comboio e rumou até ao Norte de Portugal.

No Porto, Julia Cosimi Cannata não se cansa de andar pelas ruas, diz encontrar uma hospitalidade semelhante à do povo argentino e não se sente "devorada" pelos grandes prédios. Foi num dos passeios que encontrou, perto da estação de São Bento, uma colagem de Alex Hart, uma norte-americana a viver na Invicta, que é a responsável pela editora independente "Feel Better Books". Através de uma pesquisa rápida nas redes sociais ficaram a conhecer o trabalho uma da outra. O diário da pandemia de Julia deixou de ser apenas seu - tinha divulgado algumas passagens no Instagram.

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"Eu li-o [diário] muito rapidamente. Mostrei ao meu marido e às minhas duas filhas adolescentes que o adoraram. Na altura, não tive a ideia concreta de publicá-lo, mas pareceu-me forte e importante", conta Alex Hart ao JN. Depois de um encontro informal entre as duas, poucas semanas passaram para que o diário de Julia fosse transformado no livro "Zarpado", uma novela gráfica que está agora à venda em quatro espaços do Porto (LOONBEEK, EARLYMADE, Materia Prima e Com Sotaque) e no site da "Feel Better Books". O título deriva de uma palavra argentina, que significa algo "muito bom e extraordinário" - tal como o ano da pandemia, em que apesar das dificuldades, "aprendemos muito sobre nós próprios", diz Julia Cosimi Cannata.

A artista argentina, que se aventura profissionalmente pela primeira vez no mundo da ilustração, acredita que o livro consegue apelar a leitores de todas as idades. "Penso que qualquer pessoa que goste de mergulhar nos seus pensamentos, talvez com uma mente um pouco filosófica, consegue identificar-se com aquilo que eu passei durante aqueles meses", esclarece. Para já, Julia continua a percorrer a calçada do Porto à espera que o "novelo mágico" da cidade, como escreve em "Zarpado", a continue a guiar nos próximos tempos.

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