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Artur Ribeiro: "Muitos morreram para os portugueses terem bacalhau na ceia de Natal"

Artur Ribeiro: "Muitos morreram para os portugueses terem bacalhau na ceia de Natal"

Já nas salas, "Terra Nova" mostra a saga da pesca do bacalhau. Entrevista com o realizador.

Depois da série de televisão, já está nas salas "Terra Nova", o filme, centrado na viagem de um lugre à pesca do bacalhau na década de 1930, inspirado na peça de Bernardo Santareno, com Artur Ribeiro na realização. Virgílio Castelo é o capitão do barco, numa equipa que conta com outros notáveis desempenhos de Pedro Lacerda, Vítor Norte ou Miguel Borges. Um filme de grande espetáculo, uma raridade no cinema português.

Quando se meteu neste projeto imaginava a aventura que tinha pela frente?

Fui desafiado pelo Nicolau Breyner para fazer uma adaptação de "O lugre", que ele próprio queria realizar. E escrevi a pensar como é que eles se iriam desenrascar para o filmar. Infelizmente o Nico deixou-nos, o guião já estava pronto, a Ana Costa estava à procura de financiamentos e perguntou-me se eu queria realizar o filme. E vi-me na situação de me calhar a mim resolver os problemas.

Quais foram as principais dificuldades com que se deparou?

O desafio maior era conseguir filmar com realismo e fazer um filme digno das tormentas por que estes homens passaram. A história passa-se nos anos 30, antes da viragem para o motor. Mas até essa altura ainda iam à vela. Era um feito extraordinário, digno dos descobrimentos portugueses.

Como é que descobriram o lugre onde a história se desenrola?

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Queria que se filmasse no mar e sabíamos que havia três lugres ainda a funcionar. Um estava nos Estados Unidos, já muito alterado para navio de turismo; o da Marinha estava na doca; e o Santa Maria Manuel, que foi recuperado e ainda faz viagens pelo mundo. A partir do momento em que conseguimos uma abertura no calendário deste último para podermos filmar decidimos avançar.

Por onde foram filmar?

Por coincidência, o barco estava na Noruega. Fizemos o grosso das filmagens numa viagem até à Holanda. Tivemos mesmo a experiência do mar e isso foi essencial para o realismo das cenas. Quando os vemos no convés percebemos que não estão no estúdio, que estão mesmo no alto mar. E para os atores foi muito importante a experiência de estar a viver num navio. Todos os dias a ver o horizonte no mar, a levar pancada do mar e perceber que o mar é a sério.

Houve alguma situação mais complicada a resolver?

Logo no primeiro dia um dos dóris com que filmávamos foi ao fundo, tivemos de ir buscar um ator. Olhei para os atores e percebi que tinha filme, vi-o na cara deles.

Há sequências que foram depois filmadas em estúdio.

Havia o desafio do [cenário] que já não existe. Neste caso, o rancho, o porão onde todos eles dormiam e comiam, uns em cima dos outros. Foi um feito de construção de cenário porque criámos o rancho em estúdio, mas numa plataforma que rolava, como o navio faz. Houve alguns atores que não enjoaram no navio e enjoaram no estúdio.

Há ainda efeitos especiais poucas vezes vistos no cinema português.

Era impossível fazer uma tempestade de outra maneira. Houve um investimento muito grande com uns alemães que fizeram um trabalho bom. Fazer este filme com a dignidade que tem é de se lhe tirar o chapéu.

Na fase de investigação encontrou algum pescador que tenha participado nestas aventuras?

Ainda estive com um senhor que andou nos lugres mais antigos e depois passou para a marinha mercante. Falou-nos das condições por que durante décadas estes homens passaram e dos que morriam. Não havia campanhas sem que alguns pescadores ficassem lá. O filme dá uma ideia daquilo por que estes homens passavam para os portugueses terem bacalhau na ceia de Natal.

Esta história, que faz parte do que nós fomos ao longo de décadas, corre o risco de cair no esquecimento?

Existe um setor de especialistas que mantém isto vivo. Em Ílhavo há um museu marítimo com uma réplica de um lugre. O risco que se corre é de ficar uma história de nicho e que, à medida que vão morrendo as pessoas ligadas a este assunto, se possa esquecer. Espero que o filme ajude a não se perder a memória destas gerações de homens que viveram e morreram no mar.

O filme é também uma celebração da qualidade dos nossos atores.

Gosto sempre de citar uma frase do John Huston, quando lhe perguntaram qual o segredo para a direção de atores. Ele respondeu: "Folha do elenco". Passei muito tempo a procurar os atores. Precisava de ver como é que funcionavam uns com os outros. E tive a sorte de encontrar não só um grupo de bons atores como de boas pessoas, senão podia correr muito mal a viver todos juntos num navio. Criou-se mesmo uma irmandade de homens do mar.

Citou o John Huston e "Moby Dick" é um filme de que nos lembramos ao ver "Terra Nova". Há algumas semelhanças entre o Virgílio Castelo e o Gregory Peck.

Isso deixa-me muito contente. É engraçado trazer isso à conversa, é um filme que vi em criança, revi-o mais tarde, mas não voltei a pensar nele, porque se calhar está lá inconscientemente, no meu imaginário. Nem foi dos filmes que fui ver ou rever agora.

O que espera agora com a estreia do filme em sala?

Sei que os tempos são particularmente difíceis porque as pessoas têm relutância em ter a máscara ou então perderam o hábito de ir ao cinema, e que é sempre difícil o cinema português ter público. Mas gostava que as pessoas fossem ver este filme não com o discurso de apoiar o cinema português. Quero que as pessoas vão porque acredito mesmo que vão gostar do filme. Que vão passar hora e meia de uma experiência única, uma viagem com as personagens do filme.

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