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As confissões serenas de um conservador

As confissões serenas de um conservador

Recentemente publicada pelas Edições 70 com o título "Contra a corrente", a antologia de artigos na imprensa do filósofo inglês Roger Scruton devolve-nos a lucidez da sua escrita.

A simples menção da palavra "conservador" faz surgir na mente do interlocutor a imagem de alguém que perdeu a batalha do tempo e, por isso mesmo, assiste, com um misto de azedume resignação, ao desenrolar de uma época que sente já não ser a sua.

Esta associação imediata é, como todos os estereótipos, precipitada e redutora, mas, acima de tudo, injusta, porquanto o verdadeiro conservador é aquele que se recusa a entrincheirar no passado e assume o debate de ideias como condição indissociável do ato de estar vivo.

Poucas figuras terão corporizado de forma tão exemplar a necessidade de um contrapeso ao avanço demolidor do (ultra)liberalismo como Roger Scruton (1944-2020).

Durante mais de meio século, o filósofo inglês não só construiu uma obra amplamente reputada do ponto de vista académico, com numerosos livros sobre política e estética, como assumiu também uma defesa pública dos ideais conservadores em que sempre acreditou, ao ser colunista e comentador em numerosos órgãos de comunicação social.

Foi a partir dessas colaborações dispersas no espaço e no tempo que Mark Dooley, seu executor literário, selecionou os artigos incluídos no volume "Contra a corrente".

Separados em muitos casos por quatro décadas, estes curtos textos são admiráveis a vários títulos. Mesmo que não concordemos em absoluto com o teor das opiniões nele contidas, como acontece quando reduz a arte e a arquitetura contemporâneas a um monte de despojos em tudo opostos ao ideal de beleza clássica, Scruton faz uma defesa plena daquilo em que acredita, recorrendo ao que infelizmente vai caindo em desuso: uma argumentação sólida e estruturada com o objetivo de nos mostrar que existiu um mundo, hoje quase esquecido, no qual muitas das falácias dos nossos dias - como a tese peregrina segundo a qual todos os indivíduos têm algo de válido para partilhar com o resto do Mundo, mesmo que seja uma imagem da sua refeição partilhada nas redes sociais - eram pura e simplesmente ignoradas,

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Mais notável ainda do que a coragem em assumir posições minoritárias é o modo cristalino como as expõe. Sem amargura ou altivez, o criador da influente publicação "The Salisbury Review" faz de cada texto um manifesto de elegância e bom gosto notável.

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