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As memórias sem cor de Haruki Murakami

As memórias sem cor de Haruki Murakami

No seu novo livro, "Primeira pessoa do singular", o celebrado escritor japonês Haruki Murakami espreita amiúde para o passado, mas sem jamais concretizar uma introspeção satisfatória ou sequer válida. Um passo em falso na obra do autor de "Kafka à beira-mar".

Não há pecadilhos muito mais graves para um escritor do que a autocomplacência. Partir para o salto no escuro que deve ser sempre a escrita com a exata noção do que se vai contar é a antítese da literatura e do infinito campo de possibilidades que ela deve trazer.

Nesse particular, Haruki Murakami nunca foi propriamente um escritor surpreendente. Parte do seu êxito global, aliás, deve-se à zona de conforto que os seus livros são capazes de criar, como se os leitores soubessem de antemão o que lá vão encontrar: uma mistura tranquila de ensinamentos "new age" em modo "prêt à porter" com reminiscências oníricas e um leve travo oriental que fica sempre bem exibir em tertúlias fastidiosas com amigos ou conhecidos.

Mas, mesmo para um escritor tão avesso a confrontações interiores e sobressaltos meditativos como o japonês, "Primeira pessoa do singular" é particularmente redundante.

Mais grave ainda: ao contrário do que aconteceu com o seu anterior volume de contos, "Homens sem mulheres" - em que enaltecia a força do caráter feminino, em oposição à indolência e à insegurança masculinas -, não há nestas oito histórias um sinal claro de que o autor de "A morte do comendador" tenha sequer ousado colocar em causa algum dos atributos vulgarmente associados à sua escrita, tão mecânica e previsível é a sucessão de acontecimentos narrados.

Essa ausência de questionamento é ainda mais grave porque o livro assume um fundo autobiográfico mais ou menos óbvio, o que significa que, nem mesmo quando se propõe rememorar a sua vida, Murakami é capaz de levar por diante uma introspeção válida, narrando (supostos) episódios da sua infância e adolescência com o mesmo tom burocrático de quem está a despachar serviço numa repartição de finanças qualquer.

Logo no conto inicial, "Crème de la crême", o narrador evoca um episódio distante da juventude que envolve um recital inexistente no topo de uma montanha e uma conversa absurda com um ancião.

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Nesse como em quase todos os restantes contos, nada mais se passa, afinal, a não ser uma vaga sensação de desalento que só por muito boa vontade podemos designar de autêntica, tal a forma desapaixonada como o escritor vai desfiando as suas pretensas emoções. Tão filtradas que parecem pertencer a qualquer um.


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