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Atom Egoyan: "Não interessa a verdade ou a razão, só o mistério"

Atom Egoyan: "Não interessa a verdade ou a razão, só o mistério"

Atom Egoyan visitou pela primeira vez o Porto como convidado da 2.ª Summer School da Católica. "Guest of honor", o novo filme do realizador canadiano, estreia por cá no outono e vai ter um fado

O cineasta Atom Egoyan, o artista plástico Julião Sarmento e o adjunto da Cultura do Porto Guilherme Blanc sobem ao palco do Rivoli e o autor canadiano sai-se com uma ideia impremeditada, estrambólica e muito cómica. Diz ele: "Tenho um anúncio a fazer, eu sou o filho incógnito de Salazar". Os três e a sala cheia rebentam em riso, mas o artista insiste, a tentar pôr-se sério: "É verdade. Sou o filho do ditador que
ninguém sabia que existia" - e todos riem outra vez.

É o tipo de chiste, e de desconcerto, que ninguém esperaria de um artista hermético, de ar grave e de alguma forma sombrio, como é muito misteriosamente a maioria dos seus filmes, que incluem o excêntrico psicodrama "Exótica" (1994), os flexuosos e eróticos "Onde está a verdade?" (2005) e "Chloe" (2009), a provocativa denúncia do genocídio arménio "Ararat" (2002) e o seu magnum opus sobre a infância e o luto "O futuro radioso" (1997), uma obra hipnótica que aviva a escuridão da condição humana.

Mistérios de Pessoa

Cheio de surpresas, Atom Egoyan visitou pela primeira vez o Porto no âmbito da 2.ª Summer School on Art & Cinema e revelou muitas afinidades com Portugal. Diz o autor ao JN: ""O futuro radioso" é triste e doce como são os portugueses, o fado e Portugal, percebi isso quando revi o filme aqui".

As suas obras parecem criações traumatizadas, filmes que foram abalroados por trás e que depois surgem remontados noutra sequência, em que a cronologia convencional e a lógica são desafiadas. "Os filmes
são entidades em si e cuja existência escapa mesmo ao seu próprio criador", diz Egoyan. "Veja-se o caso de Pessoa, de quem estou a ler o maravilhoso "O livro do desassossego": tem uma qualidade misteriosa, é organizado como um sonho ou várias sequências de sonhos, é muito poderoso, tem um fluxo próprio, podemos entrar nele em qualquer ponto, qualquer página, faz sempre sentido".

"Como criador, não me interessa a verdade ou a razão. Aquilo que me interessa é o mistério e, no caso dos filmes, também faço teatro, óperas, instalações, o que me interessa é não saber como aquilo vai acabar -
sim, antes de acabar os filmes eu também não sei como eles vão acabar".

Lynch também é assim

Fazer um filme é como jogar um jogo, parece dizer o autor de 59 anos, em que estamos todos, público, filme e personagens, a flutuar no espaço, em que não percebemos inteiramente a razão ou as motivações da ação e nos deixamos conduzir por esse abismo. "Veja o caso de David Lynch e dos seus filmes tão misteriosos - ele não os explica, não nos dá o significante, a solução, creio que os filmes são também misteriosos para ele próprio."

Atom Egoyan já terminou a sua nova produção: chama-se "Guest of honor", e é um filme sobre um inspetor alimentar que vive traumatizado pela possibilidade de a sua filha, que é professora, poder ter tido uma relação sexual imprópria com um estudante. "É com o David Thewlis, estreia no Outono e vai ter um fado", revela sorridente Egoyan. "Talvez tenha sido influenciado, fui certamente, por uma casa de fados de Lisboa que conheci. Aquela forma valente como os cantores enfrentam o público, aquela teatralidade operária tão íntima e tão vulnerável, isso marcou-me, fiquei fascinado". E depois conclui, sublinhando a sua surpresa: "Há, talvez, mais influências de Portugal em mim do que eu próprio julgava saber".