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Aurélio Monteiro da Costa: "Receio que o Porto perca identidade"

Aurélio Monteiro da Costa: "Receio que o Porto perca identidade"

O romance "O entardecer da esperança" assinala a estreia na publicação de Aurélio Monteiro da Costa, um gestor rendido ao prazer da escrita que confessa sentir-se preocupado com a descaracterização progressiva do Porto, a sua cidade de sempre.

No último par de anos, trocou os números pelas letras, cumprindo um sonho de longa data. Dessa entrega nasceu "O entardecer da esperança", romance com a chancela da Afrontamento que acompanha o percurso amoroso de dois jovens e as dificuldades que enfrentam em manter os seus sentimentos intactos.

Cenário de grande parte do livro, o Porto é também a cidade dos afetos de Aurélio Monteiro da Costa, em relação à qual confessa sentir algum receio pela forma como o processo de turistificação em curso pode colocar em causa a sua lendária identidade.

Este romance foi escrito em quatro meses, mas estava gizado há duas décadas. Qual o impulso que sentiu para, finalmente, escrever?


Iniciei a escrita deste romance há vinte anos, mas a vida profissional intensa que tinha não me dava a serenidade necessária para levar esse projeto até ao fim. Nos inícios de 2021 voltei ao livro. Li e não gostei do que escrevera antes. Deitei tudo fora. Como tenho mais tempo agora, em virtude de ter diminuído, drasticamente, a minha atividade profissional para três tardes por semana, resolvi encarar este desafio. Tinha consciência que não ia ser fácil, como não foi, mas não hesitei nunca em levar o livro até ao fim.

A sua vida profissional foi muito variada, mas curiosamente nunca se cruzou com as artes e a literatura. Que relação foi mantendo ao longo dos anos com estas áreas?

É verdade que sou mais um homem dos números do que das letras. A minha formação académica é na área da gestão e a experiência profissional que fui adquirindo esteve sempre focada em criar e desenvolver negócios. Escrevi alguns artigos de caráter técnico, no decurso da minha já longa atividade profissional, para revistas da especialidade. Ao nível das artes tive uma ligação à secção de cinema do Cineclube do Porto, onde em coautoria realizei um filme de pouco mais de vinte minutos, "Do Mal o Menos" e participei na produção de outros. Escrevi, também, alguns artigos para jornais, dos quais destaco dois, publicados na última página deste jornal, em duas edições nos anos 80, com o patrocínio desse grande senhor, jornalista e escritor, Manuel António Pina, a quem aproveito para prestar a minha homenagem póstuma.

O livro foi escrito em plena pandemia. Como avalia a experiência?

Avalio como uma experiência muito gratificante. Não imaginava que pudesse ter tanto prazer em escrever o que se tornou quase um vício. Eu tinha a estória em grandes linhas na minha cabeça, mas isso só não chega para se escrever um livro. Construir as personagens, a sua personalidade, a forma como interagem, é um processo fascinante. Toda a trama da estória, resolver algumas situações imaginando como reagiriam as personagens, faz da escrita um exercício apaixonante. Outro aspeto interessante, que procurei criar no livro, foi a sua dinâmica. Fazer com que o leitor fique "agarrado" ao livro não é tarefa fácil, mas segundo um número significativo de leitores, que me fizerem chegar a sua opinião, todos foram unânimes em dizer que não conseguiam parar de ler.

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O par amoroso da história, Miguel e Madalena, parecia fadado para a felicidade, mas o destino pregou-lhes partidas. Crê que o amor nem sempre chega para manter um casal junto?

A vida a dois, para resultar, é sempre um exercício de tolerância mútua. As cenas do quotidiano que o livro retrata, são cenas da vida real. Procurei na escrita dar essa perspetiva. Os caminhos cruzados de alguns dos personagens do livro levam a situações difíceis de gerir. As diferenças de mentalidade e postura perante a vida fazem do livro um manancial de cenas onde o amor nem sempre está presente, mas a vida é mesmo assim. É uma estória que podia ser a de qualquer um. A vida traz-nos sempre imprevistos, que se resumem a não fazermos planos porque não sabemos que planos tem a vida para nós. O livro é muito mais do que uma simples estória de amor. É todo o quotidiano de alguns personagens que se cruzam, cada um com as suas idiossincrasias. E é essa diversidade de estórias contadas dentro da estória principal que, na minha opinião, agarram o leitor ao livro.

O Porto é 'apenas' o local onde decorre a ação ou crê que acaba por ter, ainda que indiretamente, um papel de relevo no desenrolar da história?

Uma parte significativa do romance desenrola-se no Porto. Obviamente o Porto é parte importante no livro. A descrição de lugares icónicos enquadrados no enredo, funcionam, também, como uma forma de descrever o quanto esta cidade tem de belo. Acho que qualquer leitor do Porto, identifica-os logo na estória. São lugares que toda a gente conhece. Um leitor que não conheça a cidade apreende um pouco sobre os seus usos e costumes. Nunca houve neste projeto a ideia de ser um livro sobre a cidade. É mais um livro sobre as pessoas que a habitam com a sua genuinidade, a sua pureza, mas também o seu forte sentido de justiça e de liberdade.

Quer que este livro seja lido como uma homenagem ao Porto da segunda metade do século passado?

O livro passa-se, fundamentalmente, no último quartel do século vinte. Procurei que o Porto estivesse presente, porque é a cidade onde nasci e vivi uma parte significativa da minha vida. Procurei mostrar o pulsar da cidade nessa época. Assim como retratar o Porto da minha infância na descrição do Miguel. Talvez esse Porto fosse um pouco mais cinzento, porque a vida das pessoas era também cinzenta. A consciência que Miguel tinha da pobreza, na vida de luta e trabalho pela sobrevivência que os pais tiveram e que ele não queria para ele, daí todo o seu esforço para subir na escada social. A ambição, que Madalena considera desmedida, e que vai minar a relação. O Porto desses anos era um Porto saído do 25 de Abril e dos anos cinzentos do Estado Novo. Mas um Porto sempre de resistência e de liberdade, como uma das características que fazem desta cidade uma cidade única.

Como vê a sua cidade hoje?

Para mim o Porto é a cidade e os seus concelhos limítrofes. Hoje, encaro mais numa perspetiva de região. O Porto evoluiu muito. Transformou-se bastante. Sem querer ser um Velho do Restelo, receio que possa perder alguma identidade. Esta desertificação da cidade por força da especulação imobiliária, esta profusão de alojamento local em busca do lucro fácil, esta massificação do turismo, leva a transformações profundas cujos resultados ainda não claros. A cidade, necessariamente, está diferente. Mas suas infraestruturas melhoraram muito. O Metro foi uma aposta ganha em termos de mobilidade. A rede viária que circunda e atravessa o Porto permite uma melhor circulação. Ao nível de oferta cultural o Porto também evoluiu muito. A Casa da Música, a par com Serralves, permitem colocar o Porto como cidade de dimensão europeia.



Esta é uma história de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera ficção?


Sim, é uma história de ficção. Qualquer semelhança com a realidade talvez em muitos casos não seja ficção, mas será sempre uma coincidência. As histórias de vida que o livro conta poderão ser verosímeis, porque o mais provável é que já tenham acontecido, no todo ou em parte. A ambição por vezes desmedida, os conflitos no seio das famílias, as diferenças sociais marcantes, as relações amorosas com as suas regras e as suas faltas, são alguns, entre outros, de aspetos que o livro aborda.

Quais as principais referências literárias que destacaria?

Ora aí está uma matéria para a qual a abordagem é difícil. Li, ao longo da minha já longa vida, imensos livros. Foram tantos que já lhes perdi a conta. Há imensos autores de que gosto e em alguns deles nem sempre gosto de tudo o que escreveram. De autores portugueses, por exemplo, se falasse de Saramago, acho o "Ano da Morte de Ricardo Reis", o seu melhor livro. Outros há que já gosto menos. No caso de Lobo Antunes, gostei de "Os Cus de Judas", que considero um grande livro. Outros li que não considero ao mesmo nível. Destaco os seguintes autores de que gosto: Eça de Queiroz, Cesário Verde, Fernando Pessoa, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro. Rentes de Carvalho, Miguel Sousa Tavares, Clara Ferreira Alves, João Tordo e Gonçalo M. Tavares, entre outros. De autores estrangeiros, começando pelos de língua portuguesa, destaco Machado de Assis, Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade. De outras origens destaco: Tolstói, Shakespeare, Proust, Hemingway, James Joyce, Thomas Mann, Albert Camus, Garcia Marquez, Philip Roth, Paul Auter, Patrick Suskind, Primo Levi, Carlos Ruiz Zafón, John dos Passos, entre outros. Poderei dizer que tenho muitas referências, o que é natural. Julgo que sou bastante eclético. Desconfio, por natureza, das verdades absolutas.

O 'bichinho' da escrita ficou saciado com esta incursão ou é uma experiência a repetir?

De forma alguma ficou saciado. Como já referi, a escrita para mim está a ser um processo muito aliciante, com alguma dose de vício, mas é um "vício" bom. Estou quase a terminar o meu segundo romance. Um romance de época, passado entre os anos de 1942 e 1950, em pleno Estado Novo. Tem uma carga social e política forte, porque na figura de um jovem mineiro, natural de Arouca, conta-se um pouco a história da exploração de volfrâmio nessa região. O ambiente social e político que se vivia na época em Portugal, as diferenças sociais marcantes, obviamente dão condimento à estória. É um livro que se desenrola em Arouca e no Porto. Mas não vou levantar mais o véu. Está a ser muito interessante, mas ao mesmo tempo cansativo, porque obrigou a um trabalho de pesquisa enorme. Por isso, para mim, a escrita já faz parte do meu quotidiano, tenha eu capacidade e saúde para continuar a escrever.

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