Concerto

Baiuca e a arte de fundir a tradição da Galiza e Trás-os-Montes com a música eletrónica

Baiuca e a arte de fundir a tradição da Galiza e Trás-os-Montes com a música eletrónica

O Centro Internacional de Artes José de Guimarães assiste, este sábado, à improvável sessão de clubbing que funde a música tradicional da Galiza e Trás-os-Montes com pop eletrónica. Baiuca, promissor músico galego, é o protagonista deste concerto.

Músico com tanto de tradicional como de futurista, Baiuca pinta o cancioneiro popular do Norte peninsular com uma pop arrumada em sintetizadores predominantes e um ritmo clubbing que lembra os hedonistas anos 80. Esta mescla tão alienígena quanto auspiciosa nasce na infância do músico e produtor Alejandro Guillán (nome verdadeiro de Baiuca), que em espanhol significa taberna, mas aqui refere-se a um pequeno lugar no município de Catoira, onde Alejandro nasceu.

Até aos 16 anos tocou gaita galega, mas abandonou-a para enveredar pela criação Pop eletrónica. "Com o passar dos anos, dei-me conta que num mundo tão globalizado e com tantos projetos e coisas para ouvir, cada um tem de ir buscar a identidade ao lugar onde nasceu, onde vive e com o qual se identifica", conta, ao JN.

Foi então ao baú buscar os discos de raiz galega que tinha em casa e começou a experimentar. "A intenção era que fosse algo que não se pudesse só ouvir na Galiza, mas em todo o Mundo, para mostrar em todos os lados a música que se faz na Galiza. Felizmente surgiu algo que me agradou muito e senti-me cómodo com o projeto", recorda.

Baiuca já atuou em Portugal a solo, no Vira Pop, no ano passado, mas é a primeira vez que atua no formato que vai apresentar no Centro Internacional de Artes José de Guimarães (CIAJG), tocando ao vivo ferramentas contemporâneas como sintetizador ou sampler e instrumentos tradicionais como flautas ou ocarinas.

É acompanhado por Xosé Luís Romero, um dos mais importantes percussionistas galegos, que lidera também a banda de música tradicional Aliboria, de quem Baiuca reconstruiu o disco de estreia para fazer o EP "Misturas", editado no ano passado. Andrea e Alejandra Montero, duas das vozes do grupo, também se juntam ao concerto de Guimarães, que terá projeções realizadas em direto pelo videoartista Adrián Canoura.

Homenagem a Trás-os-Montes

Baiuca tem dado cada vez mais atenção a Portugal. Em junho deste ano, juntou-se ao duo lisboeta Haēma (das cúmplices Susana Nunes e Diana Cangueiro) e lançou o tema "Adélia", uma homenagem a Adélia Garcia, a cantadeira da aldeia de Caçarelhos, no concelho de Vimioso, dada a conhecer por Giacometti nos anos 60 e que desde então se tornou fonte de inspiração para vários artistas como a cantora Né Ladeiras, o cantautor B-Fachada ou o realizador Tiago Pereira.

Adélia Garcia, uma espécie de biblioteca da cultura popular transmontana, morreu com 83 anos no último dia do ano 2016, mas o amplo repertório que deixou gravado em aparições ocasionais em programas televisivos e obras de artistas mais ou menos conhecidos permanece uma referência para etnomusicólogos. Sem nunca sair de Caçarelhos.

"Amélia", apesar de original de Baiuca e Haēma, é um tema cantado em português cuja letra remete diretamente para um imaginário tradicional de sons e versos que compunham as regiões do Minho e de Trás-os-Montes noutros tempos. "Menina, não se namore / De homem casado, que é fama / Namore-se de um solteiro / Que lhe tire os pés da lama / Oh ih, oh ai, oh ri, vó lé / Eu vou ao restaurante tomar café / Oh ih, oh ai, oh ri, vó ló / Eu vou ao restaurante tomar o chá".

Baiuca admite que "era um sonho fazer música em português e poder indagar sobre a cultura do Norte de Portugal que é tão relacionada com a Galiza". "Amélia" surgiu após um ano de trabalho à distância com a dupla Haēma e abriu um precedente que pode enriquecer a curta carreira do jovem galego. "Pode haver mais canções em português, é um caminho que queria explorar e deixar aberta essa porta de poder fazer mais coisas no futuro, porque a Galiza pode ser só o lugar de início para dar às culturas irmãs um peso neste projeto".

O espetáculo de Guimarães é organizado pela associação cultural Capivara Azul e é o segundo do ciclo Terra, um projeto que leva músicas do mundo à Cidade Berço, em diálogo com a coleção permanente do CIAJG. Em 2019, o Terra teve os concertos de Aline Frazão (20 de julho), Otim Alpha (28 de setembro) e Zulu Zulu, ao passo que em 2020 os protagonistas são Julinho da Concertina (18 de setembro), Baiuca (hoje) e os tuaregues Kel Assouf (28 de novembro).

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