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Benoit Jacquot: "Bati à porta da Marguerite Duras e fiquei amigo dela até ao fim"

Benoit Jacquot: "Bati à porta da Marguerite Duras e fiquei amigo dela até ao fim"

Cineasta prolífico, com uma carreira de mais de 30 anos, Benoit Jacquot falou ao "Jornal de Notícias" sobre "Suzanna Andler", o seu novo filme, que já pode ser visto nos cinemas.

Marguerite Duras (1914-1996) foi não só uma das maiores escritoras de língua francesa do século XX como dedicou também uma parte da sua vida a fazer filmes, bem à sua maneira, que também deixaram marcas na cultura cinéfila. Benoit Jacquot foi seu assistente e amigo, tornando-se também um realizador de grande exigência, adaptando agora uma das peças de Duras, "Suzanne Andler", sobre uma mulher de 40 anos, interpretada por Charlotte Gainsbourg, que procura uma casa na costa mediterrânica francesa, onde possa passar tempo com o seu amante, cansada de uma vida vazia com o marido rico. O filme já está nas salas e estivemos a falar com Benoit Jacquot.

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O que o interessou em especial neste texto da Marguerite Duras?
Por razões de amizade, via bastantes vezes a Marguerite Duras. Esta peça era um tema de conversa recorrente e mesmo de disputa. Ela era muito reservada, em relação a este texto, para ela era um caso particular, mas mais negativo do que positivo. Ao contrário do que era habitual, era uma pessoa que tinha uma grande admiração pelos seus próprios textos. Foi essa diferença que me interessou. Intrigava-a bastante o que eu dizia e fez-me prometer que um dia faria uma adaptação, para lhe mostrar que era eu que tinha razão.

Chegou a perceber porque tinha ela essa reserva em relação a este texto?
Ela escreveu esta peça num momento em que, por diversas razões, não lhe parecia um bom momento. Primeiro por razões políticas, porque foi logo a seguir a Maio de 68. Achava que o meio social em que a história se desenrolava era contraditório com o empenhamento que ela tinha à época.


Há muito então de Marguerite Duras na personagem interpretada pela Charlottte Gainsbourg?
Quando ela escreveu a peça, e não o escondia, tinha uma relação com um escritor, jornalista e argumentista. Ela nunca revia os seus textos e mesmo hoje, quando a peça é reeditada, o texto é muito desordenado. Por vezes não se percebe bem a que personagem é atribuída um determinado diálogo. Há uma certa desordem mental que se pressente na leitura da peça. Talvez ela tivesse consciência disso.

Como é que se construiu a vossa relação de amizade?
Ela tinha começado a fazer filmes. À sua maneira, mas um conjunto assinalável de filmes. Um por ano, por vezes dois. E precisava de um assistente, de um braço direito. E um dia bati-lhe à porta. Abriu-me a porta e fiquei muito amigo dela até ao fim dos seus dias. Foi na altura em que ela preparava o "Nathalie Granger". Depois fiz dois ou três outros filmes com ela. Até ao "India Song". Enquanto ela montava o "India Song" eu escrevi, em casa dela, o meu primeiro filme. Que fiz com a mesma equipa e o mesmo produtor dela.

No seu filme a palavra tem uma enorme importância. Como organizou a encenação desse texto?
Pensei no texto como uma partitura musical. Tentei encontrar uma linguagem cinematográfica que correspondesse à línguagem de Duras. Mas a Charlotte Gainsbourg teve uma importância decisiva. Tudo passa por ela. Comecei por trabalhar o texto com ela, até encontrar a musicalidade exata. Depois, há a relação das personagens com o espaço, do interior com o exterior, decisivos no espaço e no tempo do filme. São questões de cinema. De um texto feito para o teatro tentei fazer o pretexto para um filme.

A Charlotte esteve ligada ao projeto desde o início?
Sim, o desejo e a possibilidade de fazer o filme surgiram a partir do momento em que dei a ler o texto à Charlotte. Deu de imediato o seu acordo, absoluto e incondicional.

A casa do filme, quer no seu interior quer no exterior, também é uma personagem do filme. Como é que a descobriu?
Visitei todas as mansões que estavam disponíveis junto ao mar na Côte d"Azur. Entre Marselha e Itália. Vi cerca de 50 casas. E, como de costume, foi a primeira que ficou. Digamos que fiquei entusiasmado com a primeira e as outras 49 apenas confirmaram a minha impressão.

Os seus dois últimos filmes, "Casanova" e este, falam de amor. É um tema que o interessa particularmente?
O cinema foi inventado para trazer alguma coisa à questão das relações amorosas. É um tema interminável, a que o cinema pode dar algo mais.

Pode partilhar algumas memórias do filme que fez em Portugal, "Até Nunca"?
Tenho uma memória bastante luminosa, muito feliz, da rodagem desse filme. Gostei muito de ir a Portugal, procurar locais para filmar, rodar com as equipas que colaboravam comigo. Foi uma experiência formidável. Embora de forma um pouco secreta. É um filme que não estava vocacionado para uma grande difusão, mesmo que tenha estado em Veneza. Mas é um filme de que gosto muito, entre todos os que fiz.

Como é que a ocasião se proporcionou de filmar em Portugal?
Foi o Paulo Branco que me convidou a adaptar um livro do Don DeLillo, que eu não conhecia. O Paulo Branco é uma personagem que me interessa bastante. Tem um perfil raro. É diferente de todos os outros produtores, não só franceses. É um aventureiro, o que por definição é muito raro num produtor de cinema, que são muito mais prudentes.

Começou a sua carreira há 50 anos. Como é que vê o cinema francês de hoje, comparado com o de quando começou?
Até há pouco tempo o cinema francês manteve-se milagrosamente estável. Com mudanças institucionais e de pessoas, mas mesmo assim, em termos de maquinaria, bastante regular e estável. Mas sobretudo nos últimos dois anos tornou-se outra coisa. Percebe-se que o sistema está extenuado. Já não vale a pena pensar no cinema francês como amigo de países vizinhos, como Portugal.

E agora, há outros textos de Marguerite Duras que o interessam?
Penso que já resolvi o que tinha a resolver.

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