Cinema

Bergman e Rossellini: uma história em quatro filmes

Bergman e Rossellini: uma história em quatro filmes

Caixa com os filmes que a atriz sueca fez com o realizador italiano acaba de chegar ao mercado

Nos últimos tempos, além da discussão sobre o eventual regresso dos espetadores às salas de cinema, a explosão do streaming, que tem alterado radicalmente os hábitos dos consumidores do audiovisual, tem levantado ainda a questão da permanência dos suportes físicos do cinema em casa. Isto é: será que as pessoas, com tantas ofertas no seu televisor, vão continuar a querer "ter" filmes em casa, como têm livros ou discos?

A resposta a esta questão pode ser dada com a caixa de quatro DVD com os filmes que Ingrid Bergman fez com Roberto Rossellini, em cópias restauradas e tendo como extras comentários áudio aos filmes e um comentário à obra de Rossellini por um dos seus assumidos devotos portugueses, António-Pedro Vasconcelos.

A chegada de Bergman a Hollywood

A história é conhecida, mas vale a pena recordá-la. A atriz sueca começara a fazer filmes na Europa e chega a Hollywood nos finais dos anos de 1930, através da versão americana de "Intermezzo".

Na década seguinte torna-se um dos ídolos dos americanos e dos cinéfilos de todo o mundo, com filmes como "Casablanca", "Por Quem os Sinos Dobram", "À Meia-Luz", vencendo um Óscar numa das três nomeações deste período, e três Hitchcock: "A Casa Encantada", "Difamação" e "Sob o Signo do Capricórnio".

Ingrid Bergman vira os filmes que Roberto Rossellini fizera em Itália no pós-guerra, "Roma, Cidade Aberta" e "Libertação", e escreveu-lhe uma carta que se tornaria famosa: "Se precisar de uma atriz sueca que fala bem inglês, que não esqueceu o alemão, que não tem um francês muito compreensível e que em italiano sabe apenas dizer "ti amo", estou pronta para fazer um filme consigo".

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Eis a resposta de Rossellini: "Cara Sra. Bergman, esperei muito tempo antes de escrever, porque queria ter a certeza do que iria propor-lhe. Mas acima de tudo devo dizer-lhe que a minha forma de trabalhar é extremamente pessoal. Não preparo um guião, porque considero que limita terrivelmente o âmbito do trabalho. Dito isto, tenho de lhe contar o meu extraordinário entusiasmo com a simples perspetiva de trabalhar consigo".

Bergman não só se apaixonou pelo trabalho do artista como se apaixonaria pelo homem, abandonando o marido e a filha, o que causou um escândalo na América.

Foram anos intensos, em que Bergman e Rossellini fizeram quatro filmes em quatro anos - além de um segmento de um filme coletivo, que não está na caixa - e tiveram gémeos, sendo que uma delas se tornaria também conhecida, como modelo e atriz, Isabella Rossellini.

O casamento durou apenas até 1957 e a atriz voltaria de novo à América, onde ganharia mais dois Óscares, tornaria a casar e viria a falecer em 1982, no dia em que completava 67 anos. Rossellini falecera antes, em 1977, aos 71 anos.

Um espelho da vida privada

Vistos hoje, os quatro filmes do casal podem ser interpretados como um espelho das suas vidas privadas. Em "Stromboli", Bergman é uma refugiada da guerra que, para não ser deportada, casa com um pescador da ilha de Stromboli, não aguentando o isolamento e um estilo de vida duríssimo.

O final deste filme assombroso, continuação do ciclo neorealista do realizador, introduz uma religiosidade - espiritualidade, se se quiser - que voltaremos a encontrar nos dois filmes seguintes.

Em "Europa 51", Bergman é uma estrangeira em Roma, mulher de um diplomata vivendo uma vida de luxo mas que, após uma tragédia familiar e uma visita aos subúrbios tem um chamamento - misto de religioso e social - que a leva a abandonar a sua existência anterior e se dedicar à gente pobre.

Obra das mais aclamadas de Rossellini, "Viagem a Itália" acompanha um casal de ingleses, Bergman e George Sanders, que ali estão apenas para vender uma casa que herdaram. Mas a trama, onde se percebe também o desconforto da personagem de Bergman neste local (veja-se a forma como não consegue comer spaghetti), centra-se sobretudo na corrosão da vida conjugal do casal, salvo por um verdadeiro milagre. Divino? Cinematográfico seguramente.

O último filme do casal

O derradeiro filme dos dois é uma obra à parte, na sua origem e na sua vertente estética, mas em linha com a evolução temática dos filmes anteriores.

"O Medo" não parte de uma ideia original de Rossellini, tratando-se da adaptação de um romance de Stefan Zweig, passando-se na Alemanha, país coprodutor do filme, onde a personagem de Bergman e o marido são proprietários de um bem sucedido laboratório. Mas Bergman tem um amante e há uma mulher que faz chantagem, embora possa não ser bem o que se pensa de início.

Rossellini encena na realidade o que se pode apelidar de suspense sentimental, com a personagem de Bergman corroída do início ao fim não só pelo medo do título mas também pela culpa, ideias expressas de forma magistral por um trabalho fotográfico que coloca o filme bem mais perto do expressionismo alemão ou do filme negro americano que do neo-realismo rosselliniano.

São enfim quatro obras mestras do cinema, fruto de uma das ligações mais frutíferas entre um realizador e uma atriz e exemplos máximos da arte de fazer filmes e de criar personagens na tela.

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