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Borges Coelho escreveu um romance do tamanho de um país

Borges Coelho escreveu um romance do tamanho de um país

João Paulo Borges Coelho abarca a história contemporânea de Moçambique no novo livro, "Museu da Revolução". Um romance-nação que não exclui uma mundividência muito própria.

A ambição excessiva nem sempre produz bons resultados em literatura. Quantas vezes não nos deparámos já com romances que, a fazer fé nas palavras tontas dos seus autores, almejaram não menos do que a descoberta do sentido da vida, mas nem chegaram sequer a roçar a competência?

Talvez porque jamais tenha tido outra ambição do que a escrita de um romance sólido e exigente, como já afirmou publicamente, João Paulo Borges Coelho consegue elevar o seu "Museu da Revolução" a um patamar de excelência que se vai tornando raro.

O que o leitor encontra nestas páginas é uma síntese do destino coletivo de Moçambique do derradeiro meio século através de um conjunto de personagens representativas do seu tecido social. Em figuras como Jei-Jei, o Coronel Damião ou Matsolo entrevemos as dinâmicas que ajudam a enformar e a compreender as transformações profundas sofridas pela sociedade moçambicana em duas gerações, após séculos de um imobilismo quase generalizado.

Da luta fratricida pela independência à não menos traumática guerra civil, chegando quase até aos nossos dias com o prolongamento das incertezas e inseguranças, Borges Coelho concretiza um autêntico romance-nação, feito ainda mais assinalável porquanto não o almejou à partida.

Se Moçambique é o protagonista improvável da narrativa, tal não significa que a história se limita às suas fronteiras. Bem pelo contrário.

O autor de "As duas sombras do rio" aponta para um arco geográfico tão vasto que consegue abarcar países como o Japão e a antiga República Democrática da Alemanha, mas também África do Sul ou Portugal. Em cada um destes pontos cardeais há elementos que são retomados mais tarde, já que, seja pela influência colonial, proximidade geográfica ou dependência económica, todos esses países carrega(ra)m uma parte da identidade moçambicana.

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A mundividência de "Museu da Revolução" passa também pelos olhares exteriores. É o que se passa com personagens como Artur Candal, um antigo soldado português que, quatro décadas depois, regressa a Moçambique para exorcizar fantasmas. Ou ainda Leonor Basto, disposta a encontrar a mãe que nunca chegou a conhecer. Num e noutro caso, Moçambique assume uma dimensão mítica que dificilmente resiste

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