Cinema

"Parasitas", a surpresa do Oriente, limpa os Oscars

"Parasitas", a surpresa do Oriente, limpa os Oscars

Foi o espanto dos espantos: o coreano "Parasitas" venceu quatro Oscars, incluindo melhor filme, realizador e filme internacional. A noite deu o primeiro Oscar de interpretação para Brad Pitt, que já esteve nomeado cinco vezes, primeiro também para Laura Dern, nomeada três vezes, "Toy Story 4", "1917", "Joker" e Jojo rabbit" também já têm Oscars. Produção de Obama para a Netflix também venceu.

"Parasitas", sátira social muito negra do coreano Bong Joon Ho, o seu sétimo filme, que coloca ricos e pobres em confronto cómico e trágico (o filme começa como comédia, evolui para thriller e acaba em profundo drama), ganhou quatro Oscars. Foi como um tufão a varrer Hollywood: é o melhor filme do ano, o que acontece pela primeira vez com uma obra que não é falada em língua inglesa. Bong pareceu perplexo.

O primeiro Oscar foi o de melhor argumento original, derrotando logo Tarantino. Bong, muito tímido, subiu ao palco e falou em coreano, com tradutor.

O seu filme já fez 73 milhões de dólares na Coreia do Sul, 30 milhões nos EUA e continua a somar. Mais importante: ganhou, como esperado, o Oscar, o de melhor filme estrangeiro. Mas o filme, mais surpreendentemente ainda, deu a Bong o prémio de melhor realizador, ultrapassando novamente Quentin Tarantino.

Bong conseguiu um momento emocional forte quando pediu um aplauso, que se transformou em ovação de pé, para Martin Scorsese, "um realizador que estudei muito na universidade quando era jovem", disse Bong, eleito, com certa surpresa, mas muito entusiasmo, como melhor diretor do ano. E também louvou Tarantino: "Quentin, I love you", disse o cineasta coreano nas únicas palavras que proferiu em inglês (continuou a subir ao palco sempre na sombra do seu tradutor).

Depois, todo o elenco tomou o palco com ele e fez-se novamente história: os discursos de agradecimento para melhor filme, pela primeira vez em 92 anos de Oscars, foram feitos em coreano.

Atores todos confirmados

Joaquin Phoenix, o pobre e iludido Arthur Fleck, o seminal Joker do filme dirigido por Todd Phillips, triunfou como previsto e foi eleito o melhor ator -- o mesmo acontecendo com todos os atores favoritos nas respetivas categorias e que já tinham ganho Globos de Ouro: Brad Pitt, Laura Dern e Renée Zellweger.

"Joker" é a história da origem do célebre supervilão e némesis do Batman -- e que deu a Heath Ledger o papel da sua vida e o Oscar de "The dark knight" (2009). A versão de Phoenix é de outro planeta e apanha a personagem em plena formação e desolação: ele vive com a mãe, tem o sonho irónico de ser um performer de stand-up comedy e vive obcecado por um apresentador de talk shows interpretado por Robert De Niro.
Drama profundo que depois rebenta em hiper-violência sobre a América que passa dos anos 70 para os 80, este Joker é essencialmente um doente mental que sofre de uma desordem que o faz desatar em risos incontroláveis ​nos momentos mais inapropriados.

Muito sério, com discurso improvisado, Joaquin Phoenix subiu ao palco de cara fechada e mãos nos bolsos e depois discorreu sobre o (mau) estado do mundo e da humanidade, terminando o discurso engasgado e a citar River Phoenix, o seu irmão mais novo que morreu em 1993 aos 23 anos: "Ele escreveu isto quando tinha 17 anos: 'Corre para os resgatados com amor e a paz chegará depois'. Obrigado". E saiu. E a sala pôs-se novamente de pé.

Sem surpresa, confirmando o Globo de Ouro e o Bafta, Renée Zellweger, ganhou o Oscar de melhor atriz pelo papel em "Judy" sobre uma das mais trágicas atrizes da era de ouro de Hollywood, Judy Garland.

Finalmente Pitt e Dern

Sem drama nem sequer suspense: Brad Pitt, que estava nomeado pela 5.ª vez, tinha um só Oscar como produtor de "12 anos escravo" (melhor filme de 2014), ganhou o seu primeiro Oscar como ator, no caso ator secundário pelo papel em "Era uma vez em Hollywood".

O nono filme de Quentin Tarantino, o seu mais maduro e melancólico, conta a história inebriante e envolvente de uma estrela de TV (DiCaprio) e do seu duplo (Pitt) e como eles entram em colisão com a família de assassinos de Charles Manson na Hollywood de 1969. Minutos depois, o filme ganhou o segundo Oscar da noite, pela cenografia. E ficaria por aí: dois Oscars em dez nomeações.

"Wow! É incrível. Isto é a honra das honras", disse Brad Pitt, 56 anos, que parecia nervoso, ou melhor, angustiado, a envergar um smoking clássico. E depois veio logo o primeiro comentário político da noite: "Disseram-me que só tenho 45 segundos para falar, bom é mais tempo do que deram no Senado ao John Bolton (ex-conselheiro de segurança dos EUA que não pôde testemunhar no julgamento de impeachment ao presidente americano Trump)". Depois vira-se para Tarantino, o realizador que lhe deu o primeiro Oscar e diz: "Pode ser que faças um filme sobre isso, chamado 'E no fim os adultos fazem a coisa certa". E de seguida, continuando a contorcer a estatueta do Oscar com as mãos, agradeceu a Tarantino ("és único, és original, a indústria seria muito mais chata sem ti"), a Leo DiCaprio, aos técnicos e duplos e produtores e aos seus seis filhos: "Isto é para vocês. Vocês dão cor a tudo o que faço".

Pitt derrotou quatro pesos muito pesados: Joe Pesci e Al Pacino ("O irlandês"), Tom Hanks ("Um amigo extraordinário") e Anthony Hopkins ("Os dois papas").

Laura Dern, a advogada de divórcios voraz e rapinante de "História de um casamento", de Noah Baumbach, ganhou também o seu primeiro Oscar, após três nomeações, e foi eleita a melhor atriz secundária. Já tinha limpado antes muitos prémios, incluindo o Globo de Ouro, o Bafta inglês e vários círculos de sociedades de críticos americanos.

Sem surpresa na animação

"Toy story 4", capítulo final da animação da Pixar iniciada em 1995 por John Lasseter, venceu o Oscar de melhor animação, como parecia já convencionado. "É uma carta de amor às nossas famílias", disse Josh Cooley, o realizador. "Toy story 3" já tinha ganho o Oscar de melhor animação em longa-metragem em 2011.

E assim é já oficial: não houve portugueses premiados, nem por interposta pessoa, já que "Klaus", a produção espanhola da SPA que obtivera algum lastro de favoritismo ao vencer o Bafta, e que teve os portugueses Edgar e Sérgio Martins como animadores, foi derrotado pela fábrica da Pixar.

"Hair Love", de Matthew A. Cherry e Karen Rupert Toliver, conquistou o Oscar de melhor curta-metragem de animação e chamou grandes aplausos.

No argumento adaptado venceu Taika Waititi, autor de "Jojo rabbit", uma sátira surreal sobre um miúdo de 10 anos fanático por nazis, cujo melhor amigo imaginário é Adolf Hitler. Taika pareceu genuinamente arrebatado pelo prémio e a voz tremeu-lhe durante o discurso. Foi o único Oscar do filme, que tinha seis nomeações.

"Mulherzinhas", de Greta Gerwig, venceu o melhor guarda-roupa. O filme com Saoirse Ronan, Emma Watson e Florence Pugh, é uma adaptação do clássico de Louisa Mary Alcott que atualiza o feminismo ao olhar a vida de várias mulheres e as tensões da sua vida entre o salto do idealismo da juventude e os inevitáveis compromissos da idade adulta. Aconteceu-lhe o mesmo que à "História de um casamento": um só Oscar em seis candidaturas, falhando também a de melhor filme.

Obama também ganha

"Uma fábrica americana", primeira de várias produções encomendadas pela Netflix a Barack e Michele Obama, venceu o melhor documentário. O filme, que se passa no Ohio pós-industrial e põe um chinês a investir numa fábrica abandonada pela General Motors, conta a história do choque entre a América de classe média e a China tecnológica.

Obama já reagiu no Twitter: "Parabéns a Julia e Steven, os cineastas por trás da 'American Factory', por contar uma história tão complexa e comovente sobre as consequências muito humanas de uma mudança económica devastadora. Fico feliz em ver duas pessoas talentosas e absolutamente boas levar para casa o Oscar do primeiro lançamento da (produtora) Higher Ground".

"Learning to Skateboard in a Warzone (If You're a Girl)", da americana Carol Dysinger, ganhou o Oscar de melhor curta-metragem documental. O tocante filme de 39 minutos segue a vida de várias raparigas afegãs que aprendem a ler e escrever (e a andar de skate) na Cabul devastada pela guerra de intervenção americana.

"1917" somou três em 11

"1917", entretanto, conseguiu três Oscars, mas o desapontamento assombra-o: era o filme mais nomeado do ano (11).

O épico de guerra de Sam Mendes, celebremente filmado num único e longo plano-sequência, um feito técnico notável que atira literalmente o espectador para o interior da história, submergindo-o nela, venceu o prémio de melhor fotografia pelo trabalho de Roger Deakins. O veterano diretor de 70 anos já tinha sido nomeado 14 vezes (primeira nomeação em 1995 com "Os condenados de Shawshank"); venceu o primeiro Oscar somente no ano passado ("Blade runner 2049") e agora o seu segundo. Recebeu dos maiores aplausos da noite.

"1917" ganhou ainda a melhor mistura de som e também o Oscar de efeitos especiais. E ficou-se por aí, com Sam Mendes inconsolável.

"Ford vs Ferrari", filme de James Mangold que conta a fabulosa epopeia mecânica da Ford que conseguiu suplantar a Ferrari na história de corridas de carros em Le Mans nos anos de 1960, ganha a melhor edição de som.

"Bombshell - O Escândalo", de Jay Roach, que conta a história real dos escândalos de abusos sexuais no canal de televisão Fox, que foi fundado e era, até há pouco, presidido pelo machista tóxico Roger Ailes, ganhou o Oscar de melhor caracterização.

Elton John ganha

Hildur Guðnadóttir, enquanto isso, fez história: é a primeira mulher a vencer o Oscar de melhor banda sonora, e logo à primeira nomeação, pela partitura de "Joker". A violoncelista islandesa de 37 anos, que já fez digressões com os Animal Collective e os mestres de drone-metal Sunn O))), dá uma tessitura especial ao drama do anti-herói Joker, com notas minimais e muito tensas.

Na categoria de melhor canção não houve surpresa: ganhou o aclamado cantor inglês Elton John com "(I'm gonna) love me again", do biopic sobre a sua própria vida, "Rocketman".

No fecho da noite, contas feitas, Martin Scorsese e o seu drama outonal de mafiosos envelhecidos produzido pela Netflix, saiu sob o peso incomensurável de 10 nomeações e zero Oscars. O mesmo já lhe acontecera nos Globos de Ouro (zero em cinco) e nos Bafta (zero em 10). É dose para um dos mais extraordinários cineastas vivos, à beira de fazer 77 anos de idade, e que em 1977 sofreu a humilhação de ver o seu esplêndido "Taxi driver" perder para "Rocky" o Oscar de melhor filme.