Fado

Camané e Kátia Guerreiro muito emocionados com perda de José Mário Branco

Camané e Kátia Guerreiro muito emocionados com perda de José Mário Branco

Apesar de ter começado por rejeitar o fado, José Mário Branco acabou por se tornar num dos maiores produtores musicais do género em Portugal. Nomes como Camané ou Kátia Guerreiro foram produzidos por ele.

Muito consternado, Camané comentou esta manhã, ao Jornal de Notícias, a perda de um amigo. "Não estava nada à espera, à partida ele estaria bem, foi completamente repentino. Está a ser uma manhã muito difícil". E relembra o tempo em que conheceu o "cantor de intervenção com uma obra fantástica".

Quem os apresentou foi Carlos do Carmo, um dia que se cruzaram no Bairro Alto."Ele foi ver uns concertos que eu dava ao domingo à tarde, no teatro da Comuna, e convidei-o a produzir o meu primeiro disco".

Antes de partirem para a produção, que viria a ser a primeira colaboração de muitas,falaram "imenso", conta o fadista. "A visão que ele tinha do fado era muito respeitadora, e isso aplicava-se a tudo o que fazia. Sempre preocupado em não desvirtuar a música", revelou, acrescentando que irá guardar sempre como ensinamentos "a passagem do bom gosto, o aprofundar da palavra e dos textos. E a interpretação, fundamental, para a forma como se transmitem os textos e a música".

No campo pessoal, Camané admite ter também uma profunda admiração "pela forma como ele se relacionava com a família, com a mulher e a sua estreita ligação a todas as formas de arte, especialmente o teatro e a literatura".

Também Katia Guerreiro, que esteve com o músico há dias, se mostrou muito emocionada: "Quando se encantava com as pessoas tornava-as especiais", comentou ao JN . Das grandes aprendizagens que guarda do trabalho com ele, sublinha como mostrou "quão importante é sermos simples na nossa passagem pelo mundo", disse.

A fadista comentou que o músico era de "uma integridade intocável, de uma coerência arrebatadora onde não havia um pingo de contradição, mas com uma generosidade imensa que não se reservava, quando era conquistado". O primeiro contacto entre os dois foi quando, a reboque do trabalho com Camané, do qual é fã, Kátia Guerreiro lhe telefonou a pedir que lhe escrevesse um tema, porque "qualquer músico se deixa encantar pela bagagem cultural em todas as áreas de José Mário Branco. Ele fez peças clássicas, navegou no jazz e na música popular portuguesa, tinha dentro dele todas essas cores. Ninguém fica indiferente aos monstros da música portuguesa que foram ele, Zeca Afonso e Fausto", contou.

A fadista relembrou que "nos primeiros encontros o José (Mário Branco) tinha uma imagem de austeridade e de seriedade, ao contrário da Manuela de Freitas [companheira do músico]. Caí diretamente nos braços dela. Foi a Manuela que o trouxe para o fado, ele não gostava nada de fado e tornou-se um dos maiores conhecedores em Portugal.

Mas um dia disse-me: "A Kátia tem a infância a palpitar dentro de si e recebeu-me com abraços em sua casa", relembrou. Um destes encontros aconteceu há poucos dias, em casa do músico. "Ele fez-me um dos seus cafés maravilhosos e estivemos horas à conversa, perguntou-me pelos meus filhos e disse-me que eu estava com um ar cansado e que precisava de descansar. Este lado familiar torna esta perda muito dolorosa", comentou, emocionada.