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Cannes: hoje é dia de Palma de Ouro

Cannes: hoje é dia de Palma de Ouro

O júri de Spike Lee tem 24 filmes para escolher.

Uma das belezas do cinema é a diversidade. De temas e abordagens formais, mas também das próprias opiniões sobre os filmes. Quem não discutiu já entre amigos um determinado filme, percebendo que alguém ficou indiferente a um filme que se adorou, ou o contrário?

Há no entanto uma ideia feita de que o jornalista e o crítico de cinema devem ter uma opinião objetiva, como se um filme, ou outro determinado objeto artístico, pudesse ser colocado numa máquina de onde sairia um resultado verdadeiramente inequívoco e sem direito a discussão. É por isso que muita gente não percebe que, naqueles quadros de estrelas, a mesma obra possa levar bola preta de um crítico e cinco estrelas de um outro. Felizmente que assim é e assim sempre será.

Vem isto a propósito do único filme da competição de Cannes 2021 que dividiu radicalmente as opiniões, entre os que detestaram ou saíram mesmo a meio da projeção e os que já o elevam a objeto de culto. Trata-se de "Titane", segunda incursão da francesa Julia Ducournau ao género de terror.

Ao canibalismo da sua obra inicial, "Grave" (ou "Raw" no título internacional, já que o filme não se estreou em Portugal) sucede-se uma personagem mutante, depois de na sua infância lhe ter sido feito um implante de titânio, na sequência de um grave acidente de automóvel. Há quem coloque na mesma frase o nome da realizadora e o de David Cronenberg, há quem considere o filme pura fancaria pseudo-gore, conjugada com um efeito de moda.

"Titane" é um dos 24 filmes que o júri dirigido por Spike Lee teve de ver e analisar nos últimos 12 dias para chegar ao palmarés que será revelado hoje ao princípio da noite, em Cannes. Além do realizador americano, encontram-se no júri personalidades tão diversas como a cantora Mylene Farmer, os atores Tahar Rahim, Maggie Gyllenhaal e Kang Oh Song e os realizadores Kleber Mendonça Filho, Jessica Hausner e Mati Diop. Como adivinhar então que filmes constarão do palmarés de Cannes, sobretudo a Palma de Ouro da edição 74 do festival mais importante e mediático do mundo?

Será que Spike Lee terá induzido os seus colegas a apostar em filmes com uma abordagem mais política da realidade, como o marroquino "Casablanca beats", de Nabil Ayouch, sobre um grupo de jovens rappers de Casablanca; "Lingui", do maliano Mahamat Saleh Haroun, sobre a problemática da mulher naquele país muçulmano; "La fracture", da francesa Catherine Corsini, sobre a falência do sistema de saúde no país; ou "Um herói", do iraniano Asghar Farhadi; ou mesmo, em honra do seu realizador, envolvido em questões legais na Rússia, "A febre de Petrov", de Kirill Serebrennikov?

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Terá o júri sido seduzido pelos problemas mentais das personagens do australiano "Nitram", de Justin Kurzel e "Les intranquilles", do belga Joachim Lafosse, ou pelas visões da América interior de "Flag day", de Sean Penn, ou "Red rocket", de Sean Bakker? Ou, pelo contrário, é o classicismo de "Benedetta", de Paul Verhoeven, "Três andares", de Nanni Moretti ou "Les Olympiades", de Jacques Audiard, que vai prevalecer?

Será que os nove membros do júri terão preferido as ideias de cinema do japonês Ryusuke Hamagachi ("Drive my car"), do dinamarquês Joachim Trier ("The worst person in the world") ou do norueguês Juho Kuosmanen ("Compartment nº 6")? E terão dado prioridade ao artifício de "Annette", de Leos Carax e "The French dispatch" de Wes Anderson ao minimalismo formal de "Tout s"est bien passé", de François Ozon, ou "Bergman"s island", de Mia Hansen-Love?

Há ainda a possibilidade, sempre presente, de surpreender tudo e todos com filmes que ninguém espera encontrar no palmarés, como os de Nadav Lapid, Ildiko Enyedi ou Bruno Dumont. E deixámos para o fim o nosso preferido: "Memoria", de Apichatpong Veerasethakul. Mas seriam necessárias muitas horas de acesa discussão entre os membros do júri para entregar uma segunda Palma de Ouro ao tailandês. Para conferir mais logo.

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