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Capicua: a artista que veio revolucionar o rap

Capicua: a artista que veio revolucionar o rap

Capicua nunca pensou viver da música, mas rapidamente conquistou o seu lugar na cena musical portuguesa. A socióloga Ana Matos Fernandes diz o que pensa, escreve o que diz, canta o que escreve. Esta sexta-feira chega o seu terceiro álbum - "Madrepérola".

Capicua é rapper, letrista, ativista, cronista e atenta. Conquistou o país e a comunidade do rap por defender e apoiar as mulheres e assumir posições. "Madrepérola" aborda temas como o machismo e a gentrificação. Desta vez, de uma forma "mais solar", mais dançável, com convidados de Portugal e do Brasil.

O álbum inspira-se na música brasileira, explicou a artista à Lusa. Os temas são mais dançáveis, há mais canções do que 'raps'. À música brasileira, alia-se "um momento muito feliz", o da maternidade.

Em "Madrepérola", Capicua tentou "fazer um bocadinho aquilo que os brasileiros fazem muito bem e com muita classe: música alegre sem ser pateta, sem facilitar". E acrescenta, citando Bebel Gilberto, no seu "Samba da Bênção": "Fui buscar esse 'jeito alegre de ser triste' para falar de coisas sérias, indo por uma abordagem mais irónica, mais cómica, mais solar".

Capicua foi mãe de um menino que nasceu a 15 de fevereiro de 2019. "Madrepérola" foi escrito e gravado enquanto estava grávida. O título do álbum é, "obviamente, uma alusão à maternidade", mas não se restringe apenas a isso.

"A metáfora da ostra que faz a pérola tem tudo que ver com falar de coisas sérias de uma forma mais luminosa, no sentido em que as ostras só fazem pérola quando entra um grão de areia na concha e começa a incomodar. Elas criam uma espécie de baba que vai cobrindo esse grão de areia porque querem que deixe de incomodá-las e acabam por criar uma pérola", referiu.

Além disso, na sua perspetiva, a ideia é "poderosa", porque "a arte serve para transformar os incómodos em beleza, no sentido mais filosófico e puro do termo".

A artista retoma a estrada este ano, e já tem concerto agendado para dia 14 de fevereiro, no Theatro Circo, em Braga.

A parceria com Beatriz Gosta

A rapper M7, que na verdade se chama Marta Bateira, e que tem um alter-ego, "Beatriz Gosta", acompanha Capicua no palco. Além de rapper, Marta Bateira é o expoente máximo de diversão, que sem papas na língua ou pudor, conta histórias fictícias num canal de Youtube.

No dia em que iniciou esta aventura, Capicua deixou no seu facebook: "A Marta (minha companheira de palco e amiga de todas as horas) dá corpo e alma a Beatriz Gosta. Uma personagem de ficção que promete animar os domingos à noite com as suas histórias hilariantes. A boémia, o sexo, as relações humanas e o humor do quotidiano, abordados na primeira pessoa, são os temas centrais desta espécie de diário íntimo. É um video blog quinzenal e o primeiro episódio saiu ontem! Vai ser "supertudo"!!"

Numa entrevista ao "O Intendente", Marta Bateira fala sobre a relação com Capicua e sobre como surge o rap. "Começámos nos grafites, e com os nossos amigos a ouvir música dos Da Weasel, Gabriel Pensador, Mind da Gap, Dealema, L.C.R. - um grupo de Aldoar que estava ali à minha beira, que fazia rap - e dali também sempre tivemos aquelas festas de hip hop. Depois tentámos fazer rap. Com os beats americanos e com os beats do "Mundo", tentámos fazer rap. A Capicua seguiu carreira, e eu sempre me acovardei muito, sempre tive muito medo."

A crítica social entre "o rap e spoken word"

Capicua nasceu no Porto há 38 anos, entrou no mundo do hip hop aos 15. Cresceu a gostar de rimas, descobriu-se a fazer graffiti, seguiu pelo rap fora. Muito antes de pisar os palcos, já transmitia a sua mensagem em cassetes gravadas em casa. Depois da licenciatura em Sociologia, em Lisboa, fez um doutoramento em Geografia Humana, em Barcelona. Mas foi na música que realizou o sonho.

Capicua edita dois EP's de rajada, o primeiro intitulado "Syzygy" (2006), e o segundo, "Mau Feitio", um ano depois, com D-One. A mixtape "Capicua goes Preemo" surge em 2008, a solo, e seguem-se várias colaborações e compilações com os mais reconhecidos DJ's e Produtores de Hip Hop nacionais.

Em 2012, edita o primeiro álbum homónimo, "Capicua", e conquista novos públicos. A artista surpreende e ganha destaque nas listas de melhores discos do ano.

Com beats de Kanye West, Capicua lança, em 2013, "Capicua goes West", em preparação para um dos seus maiores êxitos, "Sereia Louca" editado em 2014. Este álbum vai revolucionar a carreira de Capicua e assegurar-lhe um lugar de relevo em concertos e festivais de verão.

Os críticos aprofundam o respeito pelo seu trabalho e elogiam letras como a de "Vayorken" - "Com dois anos, o primeiro palavrão/ Cheia de medo, em cima do escorregão/ Mau feitio bravo, vício de gelado/ Todo sábado sagrado, mesmo durante o inverno"

Nesse mesmo ano, a música da artista serve de inspiração à plataforma feminista "Maria Capaz" (hoje, "Capazes") criada pelas apresentadoras Rita Ferro Rodrigues e Iva Domingues.

Em 2015 nasce "Medusa", um disco com 14 remisturas e dois temas originais, com a participação de Valete, M7 e DJ Ride. O tema "Medusa" dá o tiro de partida a um álbum que inclui poemas de Sophia de Mello Breyner, e contém uma forte crítica à violência contra as mulheres.

Numa entrevista ao Jornal de Notícias, a propósito desse trabalho, Capicua revela que já queria escrever há muito tempo sobre o tema. " Não só violência doméstica", esclarece, "mas sobre 'cyberbullying', abuso sexual, liberdade sexual e culpabilização da vítima". Trata-se, disse, de um tema que fala sobre silêncios, "entre um rap e a 'spoken word'".

Capicua recorreu à figura da Medusa da mitologia grega, propositadamente, como "uma história poderosa sobre a culpabilização da vítima, uma mulher que foi castigada e transformada num monstro."

Em parceria com Pedro Geraldes, dos "Linda Martini", Capicua edita, em 2016, "Mão Verde", disco e livro de música, ambos para crianças. Inicia, assim, uma nova digressão, desta vez para um público distinto, com uma clara motivação ecologista. Em 2017, lança "Lingua Franca". Em parceria com Valete, Emicida, Rael e outros produtores, o disco sai em Portugal e no Brasil.

Intervenção social no OUPA!

Capicua é também cronista da revista "Visão" e participa no programa "Duas de Letra" da Antena 3 (segundas-feiras, à meia-noite), que conta com muita música e um letrista convidado, em duas horas de conversa.

É de assinalar também a sua participação em projetos sociais, nomeadamente no projeto de intervenção social, cultural e artístico "OUPA!" idealizado em 2014 pela Câmara Municipal do Porto. Integrado no programa "Cultura em Expansão", esta iniciativa procura promover a capacitação e empoderamento dos jovens dos bairros sociais, através da palavra e da música.

Para a direção artística deste projeto que se estreou no Bairro do Cerco, e depois se alargou para Ramalde e Lordelo, foram convidados os artistas André Tentugal, Gisela Borges, Vasco Mendes e Capicua.

Após três anos de apresentações em concertos e oficinas, o "OUPA!" dedicou o ano de 2018 à profissionalização dos talentos encontrados, com a criação, gravação e edição de um disco comum que combina os contributos dos três territórios com temas bastante originais.

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