Cinema

Carlos Amaral: "A ficção científica está ao alcance do nosso cinema"

Carlos Amaral: "A ficção científica está ao alcance do nosso cinema"

Chegou às salas a muita esperada ficção científica portuguesa "Mar infinito". O realizador Carlos Amaral falou ao JN.

Há um grande filme de ficção científica nas salas, chama-se "Mar infinito" e é português. Primeira obra de longa-metragem de Carlos Amaral, também especialista em efeitos especiais, é no entanto uma obra mais de ambiências, de paisagens emocionais, do que de grandes efeitos visuais. Mas há planetas e naves espaciais. E um jovem com receio de ser deixado para trás numa Terra quase deserta e que em sonho se vê acompanhado por uma mulher, Eva. Há bom cinema português de género e o realizador explica-nos como.

Um cineasta português abalançar-se a fazer um filme de ficção científica é loucura, ambição ou as duas coisas?

Poderia dizer que é estupidez, mas um filme de ficção científica não tem necessariamente de ter um valor de produção alto. Se a ideia for boa, pode ser suportada conceptualmente e a forma como apresentamos futurismo ou tecnologia pode vir de opções de direção de arte que sejam simples de executar. A ficção científica como género está totalmente ao alcance do nosso cinema.

Até que ponto a sua experiência em efeitos especiais lhe deu coragem para avançar?

Não é de todo um filme de efeitos visuais, aliás não sou grande fã de filmes que se suportam muito em CGI [imagens geradas por computador]. Mas tenho experiência suficiente para saber o que não fazer e que há limites para o quanto os VFX [efeitos visuais] podem ajudar a contar uma história e o quanto podem destruí-la.

Quais foram os maiores desafios da produção?

PUB

Os mesmos de todos os filmes: falta de tempo e dinheiro. Filmámos com um orçamento de telefilme, que é curto, portanto tivemos pouco tempo. Dado que eu sempre quis ter uma narrativa não linear com elementos oníricos a ideia era construir muito do filme em montagem, mas com tão pouco material tivemos que reinventar muito do que tinha sido pensado para chegar a algo que se pudesse chamar um filme.

Em termos temáticos, quais são as principais influências do filme, literárias ou fílmicas?

Creio que Carl Sagan na literatura e o filme "Upstream colour" de Shane Carruth.

Há muitos anos, a crítica dividiu-se entre os adeptos do Kubrick de "2001" e os do Tarkovski de "Solaris". Então, Kubrick, Tarkovski ou os dois?

Sou adepto do Kubrick, sem dúvida. O "Solaris" é um excelente filme mas extremamente denso e visualmente está muito abaixo do "2001". Particularmente, gosto muito de filmes que se suportam na cinematografia em oposição ao diálogo. Confesso que até gostei mais da versão do "Solaris" do Soderbergh precisamente por isso. E a somar, tem uma banda sonora incrível.

É uma pessoa pessimista em relação ao futuro ou ainda tem esperança num mundo melhor neste planeta?

Costumo ser otimista a curto prazo, a longo prazo não tanto. Acho que estamos tão embrenhados em neoliberalismo que nos bloqueiam qualquer possibilidade de tentar melhorar a forma como organizamos a sociedade. Limitamo-nos a tentar gerir o sistema, acho que só nos vamos livrar dele quando colapsar de vez. Resta saber se é com estrondo.

O Nuno Nolasco é uma revelação, a Maria Leite caminha a passos largos para ser o ícone do cinema fantástico português.

A Maria foi uma sugestão do Rodrigo Areias, o produtor, porque tinha feito recentemente uma curta do Artur Serra Araújo com o Bando à Parte. O Nuno foi uma sugestão do António Ferreira. Claro que vi outros atores, mas fiz um teste com os dois e descobri que eram muito amigos e já trabalhavam juntos há anos. São excelentes atores e têm química em cena. Foi uma escolha fácil.

A música do filme é original, de Miguel Santos, e contribui imenso para as ambiências emocionais. Como trabalhou com ele a banda sonora?

Conheço o Miguel desde que tenho quatro ou cinco anos. Tem um talento monstruoso e na verdade foi um álbum dele que me inspirou a escrever o guião, a música do genérico é desse mesmo álbum. Como o conheço muito bem foi uma questão de lhe mandar o guião, ele compôs e depois fomos acertando que faixas ficavam onde. Algumas incríveis ficaram de fora. Mas ele vai lançar o álbum em formato digital. Aconselho que o procurem.

Se a relação do público português com o seu cinema já é má por natureza, com a pandemia as pessoas ainda se afastaram mais das salas de cinema. Como se pode convencer alguém a ir ver um filme português de ficção científica?

Não pode. O cinema vai passar a existir no espaço dos nichos, como no Cinema Trindade ou no Nimas, com um público fiel à procura de um circuito de cinema específico. E o público do blockbuster que vai ver um ou dois filmes ao ano. Todo o público que estava no meio ficará para sempre em casa. Há demasiada oferta. Como é que se convence alguém a sair de casa para ver um filme quando se tem 200 ou 300 na sala de estar?

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG