Entrevista

Carlos Conceição: "Discussão sobre o racismo continua em aberto"

Carlos Conceição: "Discussão sobre o racismo continua em aberto"

"Serpentário", primeira longa-metragem de Carlos Conceição, já está nas salas de cinema em Portugal. "É um filme hipnótico", avisa o realizador, em entrevista ao JN.

Exibido pela primeira vez no Festival de Berlim de 2019, o filme "Serpentário", primeira longa-metragem de Carlos Conceição, cineasta multipremiado pelas curtas-metragens, chega agora às salas portuguesas.

Natural de Angola, país que deixou há quase vinte anos para entrar na Escola de Cinema em Lisboa, o realizador de 42 anos voltou ao território natal para acompanhar o percurso de um jovem que vagueia por uma paisagem africana pós-catástrofe.

A personagem central do filme é o Carlos Conceição à procura da sua Angola?

É uma personagem de ficção. Provavelmente tem mais coisas em comum com muitas outras pessoas do que comigo próprio. Só remotamente o país do filme é Angola. Existe apenas uma referência, uma imagem do presidente Agostinho Neto a proclamar a independência. Mas está inserida numa montagem de imagens que marcaram a segunda metade do século XX, em particular confrontos que houve em África nos processos de descolonização.

O filme representa o seu regresso a Angola dez anos depois de ter vindo embora...

Nunca perdi o contacto. A minha família é de lá, a minha mãe vive lá. É verdade que durante o curso de cinema e mesmo alguns anos depois, quando tentei entrar no mercado de trabalho, não fui lá. Mas tive sempre notícias e estive consciente da evolução do país no pós-guerra.

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Como encontrou o país?

A grande diferença, quando lá voltei fisicamente, foi perceber de que forma o pós-guerra se tinha refletido numa proliferação de estruturas capitalistas e, acima de tudo, como tudo isso acentuava as diferenças sociais. Parecia ter-se tornado um ex- libris do país, parte da sua identidade. Uma coisa sem solução. Apesar de todos os problemas sociais e económicos do continente, quem viveu lá fala sempre de uma mística própria, de qualquer coisa que nunca se perde.

Identifica-se com essa ideia?

A mística de que falo é transversal a grande parte dos países africanos e permanece
no imaginário das pessoas que saem de lá. Essa mística faz com que haja uma
culturalidade muito sólida, quase palpável, em relação aos países africanos. Mas para
um cidadão português que emigre para um país asiático, essa mística em relação a
Portugal será igual. Tem a ver com a separação, com o corte do cordão umbilical.

Qual o significado do título, "Serpentário"?

Serpentário é uma constelação por vezes visível no hemisfério sul e que dá origem a um signo do zodíaco que preterimos, para termos doze signos a corresponder a doze meses do ano, em vez de treze. Essa situação é metaforicamente muito parecida com esta sensação de pertencer e não pertencer a um sítio, da sensação de não pertença. Etimologicamente serpentário é um viveiro de serpentes. O filme faz referência aos perigos de uma pessoa entregar-se a essa busca meia vã de encontrar uma raiz.

Porquê o João Arrais?

Não houve escolha. Foi imediato ser ele a fazer o projeto. O João é o ator com quem mais vezes trabalhei. Temos um enorme entendimento. É muito fácil dirigi-lo. Mesmo que não me compreenda, desde muito novo foi capaz de chegar àquilo que eu
queria. Se calhar, por termos afinidades que transcendem aquilo que estamos a fazer.

Por exemplo?

A família dele também é originária de Angola, mas ele conhecia apenas histórias. Ao
contrário de mim. Vim viver para Portugal em 2001. A família do João veio na ponte
aérea, naquela altura de 74/75. Para o João, chegar ali e descobrir com os olhos dele aquilo que só conhecia de histórias orais foi muito importante para o filme.

Depois de várias curtas-metragens de grande sucesso, deu o passo para a longa-
metragem...

É muito difícil fazer curtas-metragens, embora seja mais barato. Condensar uma história em meia hora é complicadíssimo. Tal como na literatura o conto é uma forma de arte muito mais complexa e delicada que o romance. Mas não tive essa sensação de estar a dar um passo para uma longa-metragem.

Teve a ver com a especificidade do projeto?

Foi uma rodagem sem equipa, era quase como um diário de rodagem, só podia ser feito daquela maneira. Faz parte da identidade do filme ter sido filmado na intimidade e à descoberta. Se houvesse uma equipa à nossa volta, em particular se houvesse alguém que não eu entre a câmara e a paisagem, o resultado teria ficado comprometido. A experiência de rodar uma longa-metragem em oito semanas com uma equipa gigante vivi-a muito mais recentemente.

Pode saber-se alguma coisa desse projeto que está a filmar em Angola?

É uma narrativa de guerra, entre aspas, com um título irónico, "Nação Valente". Está a ser feito com a Terratreme, com quem também estou a fazer um documentário.

O "Serpentário" estreia em Portugal um pouco tardiamente, depois de ter passado
no Festival de Berlim de 2019. Que reações foi tendo?

É o meu único filme a ter tido só críticas positivas. Até agora. Vale o que vale, naturalmente. Mas creio é que as pessoas encontram ali algo que é difícil comparar a outras coisas. Por isso há menos aquela tendência para se achar que se está a ver uma coisa que obedece a uma fórmula.

É um filme que se define a si próprio. Mas se tivesse que defini-lo, o que diria?

É um filme hipnótico mais do que narrativo. Era isso que queria que fosse, uma experiência física quase. A experiência ideal para o ver é simplesmente a pessoa entregar-se. O filme teve um ótimo percurso de festivais. Ia estrear em sala
quando veio a pandemia. Por isso só estreia agora, ainda não tinha sido possível conseguir espaços onde o mostrar.

O filme ganha agora contornos premonitórios...

Em 2019, era apenas uma especulação, estava no território das hipóteses. Neste momento, podemos relacionar-nos com a catástrofe de que o filme fala com mais proximidade, porque podemos inclusivamente ler o filme como uma metáfora para a pandemia. E também houve outra coisa: o filme convida a uma reflexão sobre pós-colonialismo, sobre identidade.

Em que medida isso é possível?

Muitas vezes ouço dizer que não tenho legitimidade para me chamar africano. Por ser branco e por ser descendente de eventuais colonialistas. Não era o caso da minha
família, mas acaba por ser a herança de todos os brancos que cresceram e viveram em Angola. As conversas que surgiram no mundo inteiro na sequência dos casos George Floyd e Bruno Candé mostram que a discussão sobre pós colonialismo e racismo está em aberto no mundo todo.

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