Queixa da PSP

Cartoonista Nuno Saraiva diz que crime é atentar contra a liberdade de expressão

Cartoonista Nuno Saraiva diz que crime é atentar contra a liberdade de expressão

O ilustrador Nuno Saraiva, autor de um cartoon publicado esta sexta-feira no suplemento "Inimigo Público", considerou, em reação ao anúncio de uma queixa pela PSP, criminoso atentar contra a liberdade de expressão e mostrou-se "preocupado" com o rumo do país.

A Polícia de Segurança Pública (PSP) vai apresentar queixa contra o jornal "Público" pela publicação, no suplemento "Inimigo Público", de um cartoon com uma figura vestida de uniforme, "aparentemente relacionado com uma ação com conotação política" junto à sede da SOS Racismo.

Em comunicado, a PSP considera que os factos "ofendem a credibilidade, o prestígio e a confiança devidos à instituição, consubstanciando a prática de crime" e que vai ainda esta sexta-feira apresentar queixa ao Ministério Público.

"Criminoso é acharem que isto é um crime, que um criativo, um jornalista, um «opinion maker», um cartoonista não pode ter direito à sua liberdade de expressão", afirmou Nuno Saraiva, em declarações à Lusa.

Realçando que nem sequer é adepto dos cartoons "mais escatológicos e altamente ofensivos", do género dos do jornal satírico francês Charlie Hebdo, o ilustrador português considera que este é até "um cartoon bastante pacífico".

Por isso mesmo, julga "absolutamente exagerado e sem sentido para uma queixa-crime". Quanto a esta possibilidade, Nuno Saraiva deixa claro que não está minimamente preocupado consigo, mas sim com "o caminho que o país está a trilhar".

"Reviravolta para mais de 40 anos"

"Parece que estamos a dar uma reviravolta para mais de 40 anos, isso é que me preocupa. E o silêncio institucional preocupa-me também", afirmou, considerando que nos últimos tempos sente que "está tudo muito pesado e esquisito", uma situação que, confessa, o "assusta". No entanto, Nuno Saraiva deixa claro que não vai explicar o seu cartoon: "Um cartoon vale por si. Os desenhos ilustrados têm a faculdade de ter várias interpretações".

Já Luís Pedro Nunes, diretor do "Inimigo Público" diz ter ficado "perplexo" com a queixa das autoridades. "Estou espantado, numa semana que foi das mais complexas dos últimos tempos a nível de questões ligadas ao racismo, às ameaças a deputados, a declarações dos vários setores da sociedade portuguesa, a direção nacional da PSP arranjou tempo para, aparentemente, processar um cartoon do Inimigo Público à sexta-feira", disse à Lusa.

Segundo a PSP, o cartoon de Nuno Saraiva está aparentemente relacionado com uma ação, ocorrida no sábado, em frente à sede da organização SOS Racismo, em Lisboa, e associa "de forma explícita" a polícia "a um qualquer movimento político-ideológico".

Essa conotação, adianta a nota, afeta "publicamente a isenção e apartidarismo que caracterizam a instituição, resultantes não só de obrigação estatutária e da condição policial, mas também da convicção dos polícias".

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