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Cécile de France: "O jornalismo também se suja quando é atraído pelo dinheiro"

Cécile de France: "O jornalismo também se suja quando é atraído pelo dinheiro"

A atriz belga Cécile de France fala com o JN sobre "Ilusões Perdidas", um filme de época adaptado do romance que Balzac publicou em 1837. Estreia esta quinta-feira.

Baseado no livro homónimo de Honoré de Balzac, "Ilusões Perdidas" acompanha o percurso de um jovem da província que aspira ser poeta, e que decide abandonar a tipografia onde trabalha e partir para Paris com a mentora e amante, uma mulher casada com um homem muito mais velho e rico. Na grande cidade, vai confrontar-se com um mundo diferente daquele que conhecia.

Ao lado de Benjamin Voisin (Verão 85), a atriz Cécile de France, que conhecemos de filmes como "O Miúdo da Bicicleta", dos irmãos Dardenne, ou "Hereafter - Outra Vida", de Clint Eastwood, interpreta essa mulher à frente do seu tempo.

Além de "Ilusões Perdidas", tem feito muito cinema nos últimos três anos.
Tenho muita sorte pelo facto de os realizadores pensarem em mim. Em alguns casos, são papéis secundários mas importantes para a história. Por vezes, gosto de não ser a personagem central. O mais importante é o que estou a interpretar e se posso divertir-me.

Em "Ilusões Perdidas", a sua personagem não está sempre em cena, mas tem uma importância enorme no desenrolar da história do protagonista.
Fiquei muito feliz por não ter de estar lá todos os dias e poder observar o Benjamin Voisin a construir a personagem. Fiquei subjugada pelo seu investimento artístico.

Filmou também, algumas vezes, durante o confinamento.
Todos estes filmes foram uma batalha para poderem ser feitos em condições suportáveis. Mas puderam ser feitos. Foi uma sorte podermos continuar a trabalhar. O problema é que agora as pessoas não estão a ir às salas de cinema. É terrível. As pessoas começaram a habituar-se a ver filmes nas plataformas. É preciso voltar aos cinemas para perceber que não é a mesma coisa.

"Ilusões Perdidas" é mesmo para ver na sala de cinema.
Num pequeno ecrã, as imagens não vão envolver-nos. Depois, há o som, a música, que é espantosa. Ir ao cinema é uma experiência mesmo física, é como uma volta num carrossel. Não tem nada a ver com ver um filme num telemóvel.

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Já conhecia o livro de Balzac?
Não, mas percebe-se que Balzac adorava fazer um retrato da sua sociedade. Convida os leitores a terem um olhar crítico. E descreve o que já era a supremacia total do dinheiro sobre a arte, a imprensa, os sentimentos e mesmo o amor. É terrível.

O filme fala disso mesmo.
É por isso que o Xavier Giannoli ficou seduzido pelo livro, que leu quando era jovem. Ele também convida o espetador a refletir, a ter um olhar lúcido sobre os mecanismos da nossa sociedade. Há um apelo para refletir sobre o capitalismo e sobre o jornalismo, que também é capaz de se sujar quando é atraído pelo dinheiro.

O filme fala afinal tanto da época de Balzac como sobre os nossos dias.
Há uma ressonância, sim. O mundo das aparências, a sede de glória, de celebridade, de luxo. Podemos transpor o percurso da personagem central para hoje. É por isso que é um filme que fala muito à juventude. Aborda o seu posicionamento face ao lucro, à glória, e mostra como pode a juventude manter-se íntegra.

A sua personagem também tem um percurso interessante...
É uma mulher que não é livre. Depende do marido financeira, social e juridicamente. É rica mas infeliz. Vive uma vida sem interesse. E corre o risco de partir com o seu jovem. Corre o risco de ser renegada pela sua casta social. É terrível perceber que era assim. Felizmente, conseguimos libertar-nos de tudo isso.

Para uma atriz, é fascinante ou uma tortura fazer um filme de época?
É um prazer usar todos aqueles fatos. É uma parte lúdica do trabalho. Filmar em cenários verdadeiros, cenários históricos, ajuda-nos, inspira-nos, transporta-nos para aquela época. É como um sonho. Neste filme tudo é verdadeiro. O Xavier Giannolli teve essa vontade. O espetador está habituado, percebe quando as coisas são falsas.

Como decorreu o trabalho com Benjamin Voisin?
Acredito muito nele, vai continuar a espantar-nos. O que acho extraordinário é ser capaz de interpretar o herói e o anti-herói. Impressionou-me bastante, entra nas emoções certas rapidamente. É ligeiro e não se leva a sério, mas está consciente da oportunidade e da responsabilidade que teve. E não passou ao lado. Tiro-lhe o chapéu.

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