Lançamento

Celebrar com os Clã para evitar o colapso

Celebrar com os Clã para evitar o colapso

Banda está de regresso aos originais com "Véspera", disco concluído bem antes da pandemia mas que narra a iminência de uma mudança.

O contexto condiciona o significado, já se sabe que sim, e nem assim podemos deixar de notar esta estranha coincidência: os Clã puseram ontem cá fora um disco que podia ter sido escrito nos últimos três meses.

Mas "Véspera" foi concluído em 2019 e não é afinal uma narração sobre o presente - a pandemia trouxe medo e a impressão de estarmos à beira do "começo do fim" anunciado no single "Sinais". É antes uma enunciação sobre um futuro possível (e plausível). O Mundo já não estava bem antes da covid-19 e a banda liderada por Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves sabia bem dessa urgência.

"Véspera" é portanto o nome da iminência de uma mudança, do fervilhar que nos ia sugando o ar já em 2017, quando arrancaram os trabalhos preliminares para o álbum. O planeta vive uma grave crise ambiental, a política está "estranha" e atingida pelo recrudescimento de ideias que se julgavam enterradas, o quotidiano é "egoísta e feito em nome do sucesso individual, de um consumo desenfreado".

Importa, apesar de tudo, sublinhar que os Clã são rápidos a dizer que "Véspera" não é uma declaração de pessimismo sonoro e poético. A intenção era executar uma intervenção artística, que fosse ouvida como celebração e resistência.

"Não queremos passar uma ideia apocalíptica , nem somos profetas da desgraça", sublinharam Hélder Gonçalves e Manuela Azevedo ao JN. O objetivo é "cívico", diz a vocalista, fazendo um apelo a que "todos sejam mais cidadãos". "A vida vale a pena ser vivida e é preciso continuar a apaixonarmo-nos".

Equilíbrio lírico e sonoro

O oitavo disco de estúdio da banda construiu-se no equilíbrio dessas ideias quase opostas. Sentimos claustrofobia em "Armário", com letra de Capicua (que se estreia nas colaborações com os Clã), alguém que tem medo de sair à rua, que é o "canário/Da mina de carvão".

E ouvimos o desejo de "dançar até cair" em "Pensamentos mágicos" (assinada por Carlos Tê), ou a esperançosa declaração de que "Tudo no amor é luz" (letra de Sérgio Godinho para "Tudo no amor"). Trata-se de uma abordagem "franca e pura" à realidade, diz Manuela Azevedo, a convocar a necessidade premente de "dar o peito às balas" por um amanhã em que a salvação pode acontecer.

A conjunção de forças diferentes é também sónica, porque "Hélder Gonçalves", que compôs as dez faixas do disco, conseguiu concretizar a vontade de desenhar um disco "mais minimal e menos cheio" e afiná-la com influências de texturas mais densas.

Nota-se hip hop em "Dá o que tem"; synth pop a cruzar as fronteiras dos anos 70/80 em "Pensamentos mágicos"; e até pop de caixa de ritmos infiltrada por efeitos sonoros alinhada com Billie Eilish. Hélder procurava a "espontaneidade" que as guitarras e a percussão fornecem, para a misturar com a "formatação" mais cadenciada da nova pop.

É tudo para aproveitar antes que haja um colapso. É tudo para evitar que ele aconteça.