Cinema

Céline Carlisle : "A cidade são as pessoas que as fazem"

Céline Carlisle : "A cidade são as pessoas que as fazem"

Correalizadora fala de "Silêncio - Vozes de Lisboa", que chegou esta semana às salas de cinema

"Silêncio - Vozes de Lisboa" fala do fado, do agora descaracterizado bairro de Alfama e do excesso de turistas na capital. Um filme necessário, que se centra no percurso de uma idosa que encontra no fado a razão de existir e na proprietária de uma tasca popular que se viu obrigada a fechar o estabelecimento devido à pressão imobiliária. O filme é realizado pela húngara Judit Kalmar e pela suíça Céline Carlisle, que vemos no filme e tem agora nacionalidade portuguesa. O filme já está nas salas e merece ser visto.

Como é que descobriu e decidiu instalar-se em Lisboa?

Foi por acaso. O meu marido teve uma oportunidade de trabalho e decidimos tentar. Pensámos que ia durar talvez dois anos e já dura há 21.

Tem assistido então, como todos os lisboetas, às alterações verificadas na cidade.

Quando cheguei comecei a dizer às pessoas para virem cá, que era uma cidade muito bonita. Durante um ano vivemos em Inglaterra e dizia aos ingleses que tinham de vir. Nessa altura não havia muita gente interessada, tinha mesmo de as convencer. E de repente, é uma coisa de moda, as pessoas vão todas para o mesmo sítio, e fica demais.

Foi o que se passou em Alfama.

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Quando cheguei, tinha amigos, mesmo portugueses, que não iam a Alfama. Diziam que era mesmo malfadada. Depois foi o que se viu... É pena, porque há sítios muito bonitos, que valem a pena serem descobertos, mas uma vez descobertos, com gente a mais, ficam estragados. Agora nem digo às pessoas para virem para cá.

O que a levou a fazer este filme?

Estudei Belas Artes, trabalhei em cenografia para teatro e ópera. E também tenho uma formação musical. Foi uma coisa que me tocou logo quando cheguei. O filme é realizado por mim e pela Judit, que vem da área jornalística. Tem um pouco estas duas vertentes.

Pensa que, sendo de fora, se sente mais livre para falar de certos temas?

Ser de fora talvez facilite esta distância, outro olhar. Mas eu sou de fora e de dentro, não me considero só de fora. Nunca iria fazer um filme assim se estivesse cá apenas há dois anos. Tenho imenso respeito por este país e já tenho nacionalidade portuguesa.

Como é que conheceu e porque é que se concentrou na Ivone Dias e na Marta?

A Ivone foi o ponto de partida do filme. Conheci-a pouco depois de chegar. No meio de onde eu vinha era preciso ser muito profissional. O que gostei no fado vadio foi que as pessoas cantam pelo amor de cantar. E havia pessoas de idade a cantar. Na Suíça, de onde venho, as pessoas de idade vão para um lar, à espera da sua hora. Achei isto tão bonito, estava mesmo a sonhar com isto, ver pessoas de idade ainda com um sentido para a vida.

E a Marta, como chegou ao filme?

Entretanto tinha encontrado a Marta, e eu e a Judit achámos que era mesmo interessante contar a história destas duas fadistas, destas duas artistas. Com o fecho da Tasca Beat ficou evidente que a Marta iria ter também um papel importante no filme.

O que pensa ser necessário para não descaracterizar ainda mais a cidade de Lisboa?

O importante é dar espaço às pessoas que vivem lá. O João, o condutor de tuk-tuk, diz, e muito bem, que são como dois pratos na balança. Por um lado precisa-se do turismo para desenvolver a cidade, para a economia, para dar trabalho a mais pessoas, mas por outro lado não se desenvolvam projetos só para turistas. As pessoas vêm a Lisboa porque gostam da sua autenticidade e se já não houver ninguém na cidade vão deixar de vir. São as pessoas que fazem a cidade.

Tendo uma formação musical, o que representa para si o fado?

A saudade, claro. Mas também o sentimento de pertença. Não no fado que se canta nas casas ou nos palcos. Mas neste fado há o sentimento de comunidade, de família, de carinho. É isso que gosto no fado.

A acompanhar o filme vai haver alguns concertos.

Vai haver um concerto em Marvila, no dia 25, num festival organizado pelos e para os moradores. O concerto vai ser com a Marta e a Ivone e com os músicos que aparecem no filme. Significa muito para mim que tenha sido escolhido pelos moradores. E no dia 29 vai haver outro concerto, no Museu do Fado, com estes músicos e outros de Alfama.

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