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Céline Sciamma: "Quero que o espectador seja o herói dos meus filmes"

Céline Sciamma: "Quero que o espectador seja o herói dos meus filmes"

Cineasta francesa fala do seu novo filme, "Petite maman - Mamã pequenina".

Está em exibição "Petite maman - Mamã pequenina", um maravilhoso conto sobre a infância, relatando a história de uma garota de oito anos que, na floresta à volta da casa da avó, que os pais vêm esvaziar após a sua morte, encontra uma rapariga da sua idade. Só que esta é nem mais nem menos que a sua própria mãe, que entretanto tinha desaparecido na floresta. Céline Sciamma, que faz seguir este filme ao aclamado "Retrato de uma rapariga em chamas", falou ao JN.

Que impulso, que desejo, a levou a escrever esta história?

Foi a história que me visitou. Foi a primeira vez que me aconteceu. Tive esta imagem das duas crianças e de uma casa. Mãe e filha, mas da mesma idade. Achei que era uma boa ideia para desenvolver, para a dar a conhecer também às outras pessoas. Senti que era como uma fábula, um novo mito, conhecermos os nossos pais mas com a nossa idade.

Quais têm sido as reações a esta história?

As pessoas olham para esta história de uma forma muito íntima. Tem a ver com a evolução do meu cinema. Não quero que a personagem central do filme seja o herói, quero que o espectador seja o herói dos meus filmes. A personagem central tem uma determinada viagem emocional, mas é o espectador que a define.

Esse lado emocional sente-se muito em especial neste filme.

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É essa a filosofia em todos os meus filmes mas sente-se neste em especial, sim. O espectador tem espaço para a sua história, para as suas emoções, para a sua própria genealogia. Cada um de nós tem tantas histórias para recordar da sua mãe, quando éramos crianças. Há tantas possibilidades com a abolição da hierarquia entre idades e gerações.

Diria que este filme é para nós, adultos, ou também para crianças?

Neste filme a minha ideia foi precisamente falar às crianças enquanto espectadores. Foi concebido e filmado dessa forma para dar espaço às crianças.

Há algo de pessoal nesta história?

É claro que sim. Fazer este filme foi como que ir ao recreio para mim. Para começar, rodei-o na minha terra natal, onde cresci. Depois, os interiores que recriámos em estúdio foram como que uma fusão das casas das minhas duas avós. São coisas muito ligadas à minha história pessoal.

O filme tem as características de um conto de fadas, com as crianças, a floresta, a casa na árvore.

Honestamente, não pensei tanto nos contos de fadas mas mais, por exemplo, nos filmes de animação japoneses, como os de Miyazaki. Podemos dizer que os filmes dele são contos de fadas? Claro que sim. Mas será sempre o início de uma longa conversa.

Como é que trabalhou com as duas crianças?

Olhei para elas como seres humanos inteligentes, empenhados, sensíveis. Em especial, no momento em que vivemos, sentem os mesmos problemas que os adultos. Olhei para elas como crianças, mas também como atrizes, como artistas. Levei-as mesmo muito a sério, tratei-as com muito respeito.

Como é que elas reagiram ao que lhes era pedido?

Elas também levaram o trabalho muito a sério. Com as crianças é preciso sempre travar um pouco o ritmo, elas são muito rápidas. Tive de perceber como é que se moviam, como eram as vozes delas. Tive de me adaptar a elas e elas tiveram de perceber o que eu queria. Mas é assim com todos os atores. Sabia também que tinha menos tempo com elas, mas estar em estúdio também ajudou. Estou muito agradecida às duas.

A rodagem decorreu durante o confinamento.

Talvez por isso seja também o meu filme mais pessoal, e não apenas por ter a ver com a minha infância. Filmámos os interiores em estúdio, num período muito curto de tempo, numa altura em que todos sentimos que o cinema estava em perigo. Foi muito atlético, havia uma série de protocolos, mas no cinema estamos habituados a isso.

Diria que este filme não teria acontecido se não tivesse ocorrido a pandemia?

Tive esta ideia quando estava a escrever "Retrato de uma rapariga em chamas". Senti que era uma história que podia escrever muito rapidamente, ao contrário da que estava a escrever naquele momento, que me obrigou a uma grande luta comigo mesma. Mas sim, era uma ideia que tinha há alguns anos. Comecei a escrevê-la antes da pandemia, logo a seguir a ter terminado a promoção do "Retrato de uma rapariga em chamas".

O filme é sobre a forma como as crianças olham para a morte.

É claro que o filme é sobre a perda. Mas em todas as idades. Imagino alguém a ir ver este filme com os filhos, ou com a mãe. De como saem da sala de cinema. O filme é desenhado como uma experiência de 24 horas. Não apenas sobre o que se deixa na sala, mas sobre a noite a seguir. Espero que este filme fique na mente de quem o vê e que possam continuar a falar dele. O cinema é sempre uma colaboração com o espectador.

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