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Chick Corea: o camaleão saiu de cena

Chick Corea: o camaleão saiu de cena

Músico e compositor de incontáveis colaborações e encarnações faleceu aos 79 anos. Às suas mãos, o jazz partiu em múltiplas direções.

Há mundos na música que o pianista e compositor Chick Corea foi plantando desde o início da década de 1960 até praticamente os seus últimos dias. Armando Anthony Corea nasceu a 12 de junho de 1941 e faleceu a 9 de fevereiro. A sua morte, de um cancro detetado recentemente e raro, foi anunciada ontem, quinta-feira 11.

Foi sobretudo num caldo de influências centro e sul-americanas que Chick Corea começou a dar nas vistas, ao lado de Mongo Santamaria ou Stan Getz. A forma como encarava o jazz, um campo disponível para múltiplas linguagens e inovações estéticas e tecnológicas, encontrou o santuário certo na banda de Miles Davis, com quem atuou em palco e em estúdio na transição para a década de 1970, um entre vários agentes num processo de envio do jazz para espaço inexplorado: o caminho percorrido em somente quatro anos, entre "Filles de Kilimanjaro" (68) e "On the corner" (72), revelou-se um dos mais audaciosos e fascinantes (e polémicos, pelo menos durante as décadas seguintes) na história da música popular.

Vários estilhaços desta explosão ganharam vida própria no projeto Return to Forever, que juntou Corea ao baixista Stanley Clarke e a um fluxo de outros músicos para ajudar a dar corpo ao que ficou conhecido como jazz de fusão, um batismo nunca consensual. Brilharam ao longo dos anos 70, tendo regressado, de forma consistente, a partir de 2010. Já na década de 80, a ideia de fusão atualizou-se e ressurgiu através da Elektric Band; um período a merecer reavaliação.

Discografia volumosa

Chick Corea foi fusão mas muito mais, em percursos paralelos que somam uma discografia volumosa. O seu segundo álbum em nome próprio, "Now he sings, now he sobs", de 1968, tornou-se um clássico do pós-bop, empregando um estilo de interpretação enérgico em contornos jazz mais formais. Abordou o vanguardismo com os Circle, ao lado de Dave Holland (baixo), Barry Altschul (bateria) e Anthony Braxton (sopros). Frequentou assiduamente a música latina. Passou pela composição erudita em álbuns e concertos - "Plays", de 2020, o último álbum lançado em vida, contém peças de Mozart e Chopin entre recriações de António Carlos Jobim ou Stevie Wonder. E depois há as colaborações, um rol infindo: Gary Burton, Bobby McFerrin, Pat Metheny, Béla Fleck, Lionel Hampton, John McLaughlin, Chaka Khan...

A sua energia e entrega a uma música generosa e coletiva não se esbateu: comprove-se em "Trilogy 2", gravado em vários palcos ao lado de Christian McBride (contrabaixo) e Brian Blade (bateria), saído há três anos - a música sorri.

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"Now he sings, now he sobs" (1968)

"500 miles high" (1973), com Return to Forever

"Armando's rhumba" (1976)

"Light years" (1987), com Elektric Band

"Pastime paradise" (2018), com Christian McBride e Brian Blade

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