Arte do Dia

Cinco mulheres a descoberto nos Grammys

Cinco mulheres a descoberto nos Grammys

A música divide-se apenas em dois géneros e nenhum deles tem sexo: a boa e a má. Mas neste menu vamos ouvir só as mulheres. Porque sim.

Comecemos pelo fim. Não há nada que possa esconder-se em Megan Jovon Ruth, a afro-americana de 26 anos conhecida por Megan Thee Stallion, eleita a melhor revelação de 2021 nos Grammys. Quem não a conhece pode começar por entrar em "WAP", o rap que canta com Cardi B.

É fácil ficarmos presos ao choque lírico daquela canção-provocação que diz logo ao que vem no arranque, "There"s some whores in this house", mas não custa assim tanto pensar que o que pretende será um bocadinho mais do que apenas chocar. Usando a sexualidade como combustível, Megan procura reclamar o empoderamento das mulheres, para que usem o poder dos seus corpos e não fiquem à espera que os homens leiam o manual de instruções.

Megan, que ganhou este ano três Grammys, pôs fim a 17 anos de domínio masculino na categoria de canções de rap. Foi com o single "Savage", que canta com Beyoncé, e em que se diz uma destemida burguesa selvagem.

Foi uma surpresa. Brittany Howard, a voz dos Alabama Shakes, venceu a melhor canção rock de 2021, derrotando Fiona Apple, Phoebe Bridgers, Adrianne Lenker e os Tame Impala. A pérola chama-se "Stay high" e diz aquilo que todos queremos: viver num único momento com o nosso amor para sempre. Ali parece tudo tão simples que quase dói: guitarra acústica, baixo, xilofone, bateria e aquela voz que umas vezes é Prince, outras vezes James Brown e noutras parece só que está possuída pela Nina.

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Ainda por cima, traz à memória um ano batido: 2013, Paredes de Coura, palco Vodafone e Brittany Howard com os Alabama Shakes a alagar o palco, cabiam menos de mil, mas éramos quatro ou cinco vezes mais, ajoelhados às suas extensões vocais. Saudades desse tempo normal em que éramos simples espectadores banais e nos comportávamos como felizes animais selvagens.

2021 foi o ano dos recordes femininos e da coroação das mulheres: Taylor Swift tem três álbuns melhores do ano (ganhou agora com "Folklore"); Beyoncé é a artista mais premiada, soma 28 Grammys e em breve ultrapassará o artista recordista de sempre, que continua a ser Georg Solti, o maestro húngaro da sinfónica de Chicago, 31 Grammys desde 1997, o ano em que morreu.

Como se explica a popularidade de Taylor, 31 anos, a cantora pop que já foi country? Explica-se pela política (em "Miss Americana", documentário Netflix, ela explica por que razão passou a ser democrata nos EUA) e pela sua permanente reinvenção. "Folklore" é o seu passaporte para o território indie, acompanhada pelas orquestrações de Aaron Dessner dos The National ou a cantar com Bon Iver. Também gostava de gostar menos deste disco, mas não é fácil.

Beyoncé não se explica, entranha-se, mesmo contra vontade, com todos os sentidos. E aquele permanente amor pela cultura negra é de tirar o fôlego. "Brown skin girl", o melhor vídeo de 2021, foi realizado por ela, Queen Bey.

Fiona Apple, a quem a revista Pitchfork atribuiu 10 pontos em 10 ao seu novo álbum, diz que "Fetch the bolt cutters" é "uma sinfonia selvagem do quotidiano, uma obra-prima inabalável, um disco sem limites". A canção "Shameika", balada de piano, conta uma história de bullying quando Fiona andava na 3.ª classe da escola primária no Harlem e uma vez tentou sentar-se com as "cool girls" e acabou gozada e humilhada. Salvou-a uma aluna da 4.ª classe, que viu a rejeição, tirou-a dali, disse-lhe para não chorar e revelou-lhe que ela "tinha potencial". Essa rapariga chamava-se Shameika e tudo aquilo deu, décadas depois, uma enorme canção.

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