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Cindy Sherman: um Dorian Gray contemporâneo para descobrir em Serralves

Cindy Sherman: um Dorian Gray contemporâneo para descobrir em Serralves

Museu de Arte Contemporânea inaugura esta quarta-feira "Metamorfoses", exposição que reúne várias séries de fotografias trabalhadas da artista norte-americana.

"Todos usamos máscaras o tempo todo": a frase de Philippe Vergne, diretor do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, é o ponto de partida para a exposição "Metamorfoses", de Cindy Sherman, uma das artistas norte-americanas mais influentes do nosso tempo, que se inaugura hoje no Porto.

A mostra que agrupa cerca de uma centena de obras da artista foi reunida na The Broad Foundation, em Los Angeles, e toma de empréstimo o título de Agustina Bessa-Luís: "As pessoas estão continuamente sujeitas a metamorfoses que chamaremos de ficção, mas que é o próprio instrumento da realidade... O indivíduo não contém apenas o seu duplo, mas muitos outros que reivindicam a sua identidade do fundo do ser".

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A metamorfose é algo recorrente na obra de Sherman, que partindo de autorretratos feitos em estúdio, consegue simular uma constelação em que é duplamente sujeito e obra.

A exposição não está organizada de forma cronológica, mas sim através de séries temáticas, em que, como revelou Vergne, "há sempre um intruso".

Na primeira sala de Retratos Históricos, com as paredes pintadas de uma cor forte para mostrar "que somos uma instituição de peso, como um Louvre com as obras dispostas na vertical, penduradas e emolduradas", como ironizou o responsável, há uma série de retratos de grande escala que replicam - sem nunca citar - o original, pinturas da Renascença, do Barroco ou do Neoclassicismo de Caravaggio, Jeans Fouquet ou Oscar Gustave. Todas as figuras, na sua maioria femininas, são Cindy Sherman metamorfoseada com seios de plástico, próteses ou perucas, de onde é possível retirar os temas-chave como o poder, a maternidade, a violência e a sexualidade.

Mas, nem só os velhos mestres servem de apoio à artista; em alguns dos seus trabalhos da série "Still film" faz representações pictóricas, de como as mulheres foram retratadas pela Sétima Arte, nos anos 50 e 60, como objetos, pueris ou domésticas.

Num outro extremo, a série "Palhaços" espelha o medo criado por clássicos do cinema, como "O maior espetáculo do Mundo", de Cecil B. Demille, ou "Freaks", de Tod Browning, com as criaturas deformadas pelo excesso de maquilhagem. As imagens gigantes, os sorrisos paralisados e as cores berrantes anteveem uma atmosfera grotesca.

Moda e música, deformações e olhar

Alguns dos trabalhos mais artesanais, do princípio da carreira, incluem séries de representações de pessoas que encontrava nas paragens de autocarro, quando se mudou de Bufallo para Nova Iorque, nos EUA. Aqui existem poses estereotipadas e arquétipos sociais recorrentes na sua obra. Há também uma pequena série de colagens a preto e branco de uma grande delicadeza.

Os trabalhos de moda que executou não são isentos dessa característica, onde ironiza deformando a cara dos protagonistas que encaixa em capas de revista, com títulos sugestivos como "As 113 coisas mais horrendas para vestir".

Apesar da distorção chegou mesmo a ser convidada para fazer trabalhos para grandes marcas de moda, como Comme des Garçons ou Jean Paul Gaultier - ao invés de apresentar a mulher perfeita, simula figuras melancólicas e caóticas.

Noutra série, a violência, especialmente sexual, está ampliada em imagens de bonecas e próteses ao estilo das que realizou para as capas dos discos "Painkillers" e "Fontanelle", das Babes in Toyland.

Na sala coberta de papel onde estão desenhados pavões - símbolo da vaidade - aparecem os Retratos da Sociedade, novamente primeiros planos de arquétipos sociais. A artista fez um mural para Serralves onde aparece uma autorrepresentação de quatro metros imperdível. No fim da mostra está também uma representação de Dorian Gray, contrariando a passagem do tempo, assim como Cindy Sherman.

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