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Cinema da região árabe mostra-se ao mundo

Cinema da região árabe mostra-se ao mundo

Começou esta segunda-feira a primeira edição do Red Sea International Film Festival, na Arábia Saudita

Deveria ter-se realizado em março do ano passado, mas a eclosão da pandemia adiou até agora o início de uma das mais esperadas manifestações cinematográficas dos últimos anos. O Red Sea International Film Festival vai decorrer até dia 15 deste mês em Jidá, na Arábia Saudita, banhada pelo Mar Vermelho que dá o nome ao evento.

Além dos vários festivais que se realizam nos países do Maghreb, sobretudo o de Cartago, na Tunísia, já com vasta tradição, o mundo árabe já viu aparecerem e desaparecerem festivais em Doha, no Catar, em Abu Dhabi e no Dubai, mantendo-se a existência do Festival do Cairo, cuja edição deste ano terminou há dias e se mantém como o mais antigo da região.

Também no Egito, o recente Festival de El Gouna trouxe para a região um glamour que pretende rivalizar com os europeus de Cannes, Berlim e Veneza, mas o anúncio de um festival na Arábia Saudita suscitou desde logo o interesse da comunidade cinematográfica internacional, de produtores e realizadores à imprensa especializada.

Na realidade, o cinema árabe é hoje um dos mais vibrantes de todo o mundo, mostrando uma enorme vitalidade e diversidade, tanto mais interessante quando se sabe que muitos dos países da região sofrem de problemas políticos e sociais ou de falta de experiência e organização industrial que torne a sua produção mais competitiva nos mercados internacionais.

Não há no entanto, hoje em dia, qualquer grande festival que se preze por esse mundo fora sem a presença de vários filmes de cineastas árabes. Entre nós, e apesar de o mercado de exibição ser muito fechado, por razões económicas e porque a adesão do público nem sempre é a desejada, têm estreado em sala com alguma regularidade filmes desta origem, sobretudo quando feitos em coprodução com países ocidentais, muito atentos a esta parte do negócio. Exemplo disso é o conhecimento que os cinéfilos portugueses têm da obra do palestiniano Elia Suleiman.

A porta para Meca

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É, pois, com a maior expectativa que se chega a Jidá, a segunda maior cidade da Arábia Saudita, cuja parte antiga é património da Unesco e é considerada a porta para Meca.

Muitos dos peregrinos que pelo menos uma vez na vida têm de se deslocar ao local sagrado do Islão chegam dos seus países a esta cidade, pelo seu moderno aeroporto ou pela sua zona portuária.

O festival de cinema tem início no dia a seguir à realização do Grande Prémio de Fórmula 1, o que corresponde à chegada ao território, num curto espaço de tempo, de alguns milhares de pessoas vindas de todo o mundo. No entanto, as medidas de proteção contra a covid são bastante estritas.

Teste PCR menos de 72 horas antes da partida mesmo para quem tenha a vacinação completa, registo dessa informação num documento preenchido previamente e a obrigatoriedade de uma aplicação no telemóvel que permitirá a entrada na maior parte dos espaços públicos.

Além disso, o uso de máscara é obrigatório em todo o território. Segundo dados fornecidos pela organização, 83% da população - mais de 34 milhões - está vacinada e apenas se localizam uma média de 40 novos casos de infeção por dia.

Para colmatar a falta de experiência na organização de um evento desta dimensão, a direção do festival entregou várias tarefas a personalidades do mundo inteiro.

Por exemplo, o francês Edouard Waintrop, antigo responsável pela Quinzena dos Realizadores de Cannes, foi escolhido para exercer o cargo de diretor artístico. O britânico Kaleem Aftab, crítico de cinema com enorme experiência no circuito
internacional de festivais, é responsável pela programação internacional. A seleção dos filmes árabes está a cargo do libanês Antoine Khalife, crítico e produtor de cinema com larga experiência anterior como consultor de inúmeros festivais de cinema.

Forte presença feminina

O festival, que tem uma componente de indústria bastante forte, com fundos a atribuir a projetos que serão apresentados, em desenvolvimento, produção ou pós-produção, tem uma forte presença de mulheres realizadoras, dedicando ainda espaço para a homenagem a duas mulheres com uma carreira assinalável no cinema: a francesa Catherine Deneuve, que dispensa apresentações, e a saudita Haifaa Al Mansour.

Primeira realizadora do país, é um dos nomes mais significativos da indústria local e uma ativista da participação das mulheres no cinema de toda a região.

Com uma programação não completamente constituída por filmes do mundo árabe, a abertura do festival, hoje ao fim da tarde em Jidá, terá como prato forte a projeção de "Cyrano", a nova versão do clássico de Edmond Rostand, com Peter Dinklage no protagonista e Haley Bennett como Roxanne, dirigidos por Joe Wright.

A competição oficial, além da Palestina, Argélia, Egito, Síria, Iraque, Marrocos, Tunísia, Jordânia e Arábia Saudita, inclui ainda filmes do Senegal, Indonésia, Irão, Bangladesh e Georgia. Para ver e revelar aqui nos próximos dias.

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