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Cinema e realidade cruzam-se de forma trágica em Cannes

Cinema e realidade cruzam-se de forma trágica em Cannes

"Mariupolis 2" mostrou imagens de cineasta assassinado pelas tropas russas. Tiago Guedes e a equipa de "Restos do Vento" sobem este sábado à passadeira vermelha

Tremenda ironia do destino. No dia em que os últimos soldados ucranianos deixam Mariupol e a cidade há tanto tempo cercada anuncia a sua rendição, Cannes assiste com comoção ao filme "Mariupolis 2". A história já era conhecida. Regressando à cidade onde já tinha feito em 2016 um documentário, o realizador Mantas Kvedaravisius marcara também encontro com a morte. Num dia do início de abril, foi capturado e assassinado pelo exército russo.

A noiva que o acompanhava, Hanna Bilobrova, conseguiu retirar do local as imagens entretanto filmadas e, juntamente com a montadora habitual do realizador, Dounia Sichov, compôs "Mariupolis 2", que o Festival de Cannes decidira juntar à sua programação. Na sessão oficial, Hanna Bilobrova não conseguiu naturalmente esconder a sua emoção, antes da apresentação do impressionante trabalho que ajudou a resgatar.

São sobretudo imagens em bruto, captadas num bairro periférico, longe dos combates mais cerrados, mas que sofrera já com os bombardeamentos. Alheio ao que se está a passar, um galo vai anunciando um, novo dia, enquanto a população se reúne numa cave, prepara uma enorme panela de sopa num pátio destruído, limpa destroços como que para manter a sua dignidade, sai em volta à procura de água, ou nos mostra onde era a casa onde vivia e trabalhava, antes da queda de uma bomba, deixando-o sem nada e na miséria, após mais de trinta anos de trabalho. Cinema e realidade cruzam-se tragicamente, fazendo parecer tão inútil e pueril todo o glamour em volta do fenómeno Cannes.

Na competição oficial, grande destaque para o novo filme de Arnaud Desplechin. Com "Traições" ainda nas salas portuguesas, "Frère et Soeur" junta-se à lista dos potenciais candidatos ao palmarés final, onde já se encontram os filmes de James Gray, Jerzy Skolimovski e Kirill Serebrennikov. Filmando cada vez melhor, o realizador francês oferece-nos um drama familiar, sobre uma velha disputa entre um irmão e uma irmã, interpretados por Melvil Poupaud e Marion Cotillard, a que nem a morte dos pais é suficiente para sarar a ferida aberta. Mas a vida dá sempre uma volta...

Tornado conhecido pelos seus filmes corais, que ganharam visibilidade ao longo dos anos aqui em Cannes, Desplechin deu também uma volta ao seu cinema com o magnífico "Roubaix, Misericórdia". E após o sensível relato autobiográfico de Philip Roth, que ainda podemos ver em Portugal, "Frère et Soeur", também com estreia assegurada nas nossas salas, é um filme para todos os que têm ou tiveram irmãos ou irmãs, de quem por vezes nos separámos, por vezes sem saber bem porquê. Uma reflexão sobre a vida, filmada com enorme elegância e servida por uma dupla de atores com que nos identificamos, nos seus ódios e nas suas paixões, nas suas vivências, nas suas negações, na forma sublime da reconciliação.

Num outro registo completamente diferente, "Boy from Heaven" coloca o protagonista, jovem filho de um pescador, na mais importante escola religiosa do Cairo. Uma morte vai desencadear uma disputa interna, com o jovem predestinado a ser disputado por um grupo fundamentalista e por um agente dos serviços secretos. O filme de Tarik Saleh mostra a vitalidade do cinema egípcio, os meios a que pode aceder, mas também uma vertente mainstream que o afasta claramente do resto do cinema da região e mesmo do mundo árabe. De qualquer forma, a sua trama agarra-nos de princípio a fim. Como aliás acontece com "La Nuit du 12", regresso a Cannes de Dominik Moll, agora na nova secção Cannes Premiere, com um policial envolvente, baseado num facto verídico ainda hoje por resolver, a morte violenta de uma jovem numa pequena localidade da região de Grenoble.

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Mas hoje, pelas 18.30 horas, é a vez de Cannes assistir à estreia mundial de "Restos do Vento". Na subida dos degraus da passadeira vermelha mais portuguesa deste ano, está prevista a presença do realizador Tiago Guedes, dos atores principais do filme, Albano Jerónimo, Nuno Lopes, Isabel Abreu, João Pedro Vaz, Gonçalo Waddington, Leonor Vasconcelos e Maria João Pinho, dos jovens Ivo Arroja, Afonso Laginha, Rui Pedro Silva Teixeira e Maria Abreu, do coargumentista do filme Tiago Rodrigues, do produtor Paulo Branco e da produtora executiva Ana Pinhão Moura

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