Festival de Cinema de Berlim (Dia 1)

Cinema português no primeiro dia da Berlinale

Cinema português no primeiro dia da Berlinale

"No Táxi do Jack", de Susana Nobre, selecionado para a secção Fórum

Um ano depois do encerramento da edição 2020 da Berlinale, começa esta segunda-feira mais um Festival de Cinema de Berlim, um dos mais importantes certames do calendário internacional, embora num modelo distinto, face à situação mundial de pandemia.

Até à próxima sexta-feira a imprensa especializada tem acesso aos filmes das diversas secções em que o festival se divide, ao mesmo tempo que decorre, também virtualmente, mais uma edição do Mercado do Filme. Para junho, está previsto um Especial de Verão, presencial, mas destinado sobretudo ao público berlinense.

Do programa desta segunda-feira salienta-se a primeira entrada nacional, com o documentário "No Táxi do Jack", reencontro da realizadora Susana Nobre com Joaquim Calçada, que conhecera ao rodar o seu filme "Vida Activa" e que faz parte da seleção deste ano do Fórum.

Antigo emigrante nos Estados Unidos, onde fez um pouco de tudo, como taxista, Joaquim está à beira da reforma, mas precisa de colecionar carimbos de empresas para justificar procura de emprego, sob pena de perder o seu subsídio. Pelo meio, família e amigos mostram-nos a face mais secreta deste homem, solidário e grande contador de história e que personifica, sem o saber, um pouco o que é ser português.

A câmara de Susana Nobre, terna mas realista, percorre ainda um tecido social e económico quase desolador, no quadro da paisagem urbana e industrial da região de Alhandra e Vila Franca de Xira, nos arredores de Lisboa.

O passado numa caixa de cartão

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Atendendo aos dois primeiros filmes já disponibilizados e dentro do prazo de embargo a que se é obrigado pela produção, a competição pelo Urso de Ouro começa bem, com a coprodução entre Líbano, Franca e Canadá "Memory Box" e com o primeiro dos quatro filmes alemães a concurso, "I"m Your Man".

Figuras de proa do cinema libanês, há muito a trabalharem juntos, Joana Hadjithomas e Khalil Joreige oferecem uma comovente e perturbadora viagem ao passado do seu país com "Memory Box".

A história tem início na atualidade, em Montréal, onde Maia vive há muito com a sua filha Alex. Na véspera de Natal, é esta que recebe uma caixacom cadernos, fotografias e cassetes áudio, até aí na posse da melhor amiga da mãe, que acabou de falecer, desde que as duas se separaram, durante a guerra.

Devido à resistência da mãe em lhe falar do passado, é essa "caixa de Pandora" que vai permitir a Alexa desvendar o passado da sua família e do seu país. Apesar de alguns efeitos visuais desnecessários, "Memory Box" é uma obra importante, delicada e tocante, sobre a necessidade das novas gerações conhecerem o seu passado para melhor enfrentar o seu presente e o seu futuro.

É precisamente de um futuro, já imaginado mas não concretizado, que nos fala a comédia germânica "I"m Your Man". Alma, nome tão certo para a história que o filme nos conta, é investigadora num importante museu de Berlim e aceita participar num projeto experimental, recebendo em sua casa, à experiência durante três semanas, um humanóide, concebido em função daquilo que ela entende ser o homem perfeito.

Só que não só Alma tem pouco tempo para lhe dedicar como Tom se demonstra demasiado perfeito. Viva a imperfeição, é o lema deste filme, muito mais profundo do que a sua aparente ligeireza pode dar a entender, e que, apesar de nos confrontar com robôs, nos mostra muito do que nós, seres humanos, somos no fundo.

E Dan Stevens, o britânico que dá corpo a Tom, é quase perfeito no papel. Se o fosse completamente, o que seria deste filme? Os alemães começam a fazer comédias perfeitamente exportáveis, com um conteúdo universalista.

Encontros com o mundo

Desde o ano passado que a Berlinale tem uma nova secção competitiva. Chama-se Encounters e busca novos caminhos estilísticos e narrativos para o cinema. O nosso cinema ficará para sempre ligado à edição inaugural desta secção, com a conquista do Prémio da Crítica por "A Metamorfose dos Pássaros", de Catarina Vasconcelos, e para já, pelos três filmes exibidos hoje, a qualidade da seleção deste ano é bem elevada.

Do Vietname, assistimos ao nascimento de um grande cineasta. Le Bao, realizador de "Taste", ambienta o seu primeiro filme de longa-metragem num bairro pobre de Saigão, semelhante aquele em que passou a sua infância e juventude e onde, contra todas as probabilidades, começou a sonhar com uma vida no cinema.

É dos rituais do trabalho, da preparação da comida, da higiene diária ou da saúde, que é constituída grande parte da matéria dramática do filme, sustentada pelos corpos de um nigeriano que chegara à cidade para jogar futebol mas fora dispensado devido a uma lesão, e das várias mulheres que com ele convivem e repartem a vida sexual.

A composição visual é sempre muito cuidada, numa lógica quase teatral e estetizante, mas cada plano tem sempre algo para dizer e a aparente vacuidade da trama acaba por nos enlear de forma inesperada.

Alice Diop continua a sua obra, dedicada à observação da sociedade francesa de hoje, com um dos seus filmes mais pessoais, "Nous". Coleção de retratos de gente dos subúrbios parisienses, de primeira ou segunda geração de emigração, o filme integra ainda elementos biográficos da realizadora, com imagens de vídeos familiares, estabelecendo no entanto um corte radical com o grupo de caçadores do início e do fim do filme, num sinal claro da diversidade de uma sociedade francesa que ainda tem alguns problemas em aceitá-la.

O filme de Alice Diop, na sua sinceridade e na sua frontalidade, é mais um elemento para a discussão e para um caminhar, talvez lento, mas sólido, para essa vivência em comum.

E é mais uma vez de memórias, do passado e de laços familiares que nos fala "Moon, 66 Questions", uma obra intrigante que chega da Grécia, com assinatura de Jacqueline Lentzou, na que é a sua primeira longa-metragem, após uma série de filmes curtos.

O filme acompanha Artemis, filha de pais separados, que regressa à Grécia após alguns anos de ausência, para cuidar do pai, gravemente doente, o que ocasiona um choque com um passado que desejava não ter de voltar a viver. Obra intimista, por vezes enigmática, revela-nos um olhar sereno e terno para com as suas personagens e uma cineasta com um universo a acompanhar.

Um colégio interno como microcosmo da sociedade

Há muito mais cinema para descobrir, num dia de Berlinale. Cineasta veterano, o documentarista israelita apresenta no Fórum "The First 54 Years - An Abbreviated Manual for Military Occupation".

Ao mesmo tempo que, olhos nos olho,s nos traça o que tem sido a ocupação militar israelita em West Bank e na Faixa de Gaza, desde 1967, vai conjugando o seu tom mais professoral e pedagógico com uma série de entrevistas a antigos militares israelitas presentes no terreno e com imagens de arquivo perturbadoras e bem significativas sobre o que tem sido a relação do exército israelita com a população palestiniana dos territórios ocupados. Um documento corajoso e brutal.

Não menos brutal, mas de for,a ficcionada, é "Brother"s Keeper", segunda longa-metragem do turco Ferit Karahan, um dos primeiros filmes revelados da seleção do Panorama deste ano. Num colégio privado das montanhas geladas da Anatólia, a punição de um banho de água fria vai gerar um confronto entre reitor e toda a sua equipa, face à grave situação de saúde de um dos jovens alunos, que um dos seus colegas nunca abandona.

Um título que entra diretamente para as obras mais importantes feitas no âmbito deste tipo de instituições, o filme é também, em surdina ou mesmo de forma evidente, uma reflexão sobre a sociedade turca de hoje - a questão curda não é esquecida - através deste microcosmo em que se centra.

Secção a que normalmente se dá menos atenção, quando um festival presencial obriga a fazer escolhas sobre o que se pode ver durante um dia, Generations é dedicada sobretudo a obras centradas sobre as problemáticas da juventude, no seu sentido mais amplo. Como é o caso do filme suíço "La Mif" - calão em francês para família - e que também se desenrola numa instituição, aqui de acolhimento para adolescentes com quadros familiares problemáticos ou mesmo ausentes.

Depois de se ver confinada ao sexo feminino, por ter havido uma situação de relação sexual entre uma rapariga e um colega de 14 anos, o filme acompanha um grupo de jovens, entre as suas histórias pessoais e o seu enquadramento no grupo, sem esquecer o trabalho, e os seus próprios problemas, de toda uma equipa de responsáveis do centro. Fred Baillif constrói o seu filme sem fazer juízos de valor, dando-nos a ver uma geração que começou mal a sua vivência mas não perdeu ainda a esperança.

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