O Jogo ao Vivo

Porto

Coliseu esgotou duas noites seguidas para ouvir Pedro Abrunhosa

Coliseu esgotou duas noites seguidas para ouvir Pedro Abrunhosa

25 anos de estrada, oito discos originais, mais de três horas de concerto, para celebrar "Espiritual", o álbum que ditou a digressão do músico em 2019

Previa-se uma noite intimista, emotiva, poética. Pedro Abrunhosa, que abriu o ano de 2019 nos Aliados, a destapar o então ainda quente "Espiritual" - o seu oitavo disco de originais e aquele em que a escrita de canções se impõe de forma incontornável -, andou doze meses em digressão pelo país e, na reta final do ano, regressou a casa, ao Porto, para dois concertos apoteóticos.

Nas duas últimas noites, sexta e sábado, Abrunhosa esgotou o Coliseu (teria esgotado quatro datas, garante ao JN a produção, se houvesse calendário - e, até prova em contrário, ainda é naquela sala que os músicos ficam à flor da pele), cantou mais de três horas em cada atuação, percorreu quase os álbuns todos desde "Viagens", 25 anos de estrada, mais de 20 canções em cada noite, e protagonizou um espetáculo em que a emoção falou mais alto.

"Não é para entreter, é para sentir"

Num ambiente acurado, pouca luz e silêncio total, Pedro Abrunhosa surge sozinho em palco, mostrando logo ao que vem: será "uma noite encantada para o resto da vida". Arranca no início deste século, ao piano, com "Momento", a canção mais ouvida em Portugal em 2002 e 2003, seguindo para "Eu não sei quem te perdeu". À segunda canção desse álbum, dupla platina, o público já estava rendido.

No palco, uma tela vai exibindo imagens e letras das canções, Abrunhosa continua sozinho a resgatar temas antigos, como "Balada de Gisberta", recordando o "bárbaro crime" que em 2006 tirou a vida a uma mulher apenas "porque era diferente e mais fraca"; ou "Senhor do Adeus", a relembrar o "príncipe feliz do Saldanha"; ou "Será", aquela pungente carta de despedida que um homem escreve a outro homem que vai morrer com sida.

A tela só desaparece quando se ouve "Vamos levantar voo", primeira incursão pelo disco "Espiritual". A condizer com esse álbum, introspetivo e despido de artefactos, o músico permanece solene e despojado em palco. Mas a partir daquele momento rodeia-se da sua família musical, os Comité Caviar. E se dúvidas ainda houvesse de que seria uma noite para despir sentimentos, o compositor nascido do jazz acabaria por avisar: "Este espetáculo não é para entreter, é para sentir".

Por isso, não basta cantar as canções dele com ele, coisa que o público até fez quase do início ao fim do concerto. É preciso prestar atenção às letras. Cada vez mais, porque Abrunhosa é cada vez mais isso: o escritor de canções que não ignora o país e o mundo onde vivemos. "Amor em tempo de muros", primeiro single de "Espiritual", é sobre a crise de refugiados. Mas essa é apenas uma das histórias reais que conta no disco.

Se o avesso de quase todas as letras estava já identificado, por estes dias Abrunhosa decidiu decifrar outra canção: "Pode acontecer", um dos momentos mais emotivos da noite, foi escrita para os seus pais. Viveram juntos a vida inteira e só a morte, agora, aos 90 anos, conseguiu separá-los.

O Coliseu ouviu ainda temas que dispensam apresentações, como "Se eu fosse um dia o teu olhar", "Não desistas de mim" ou "Lua". O funk teve aparição fugaz, com novos arranjos, em "Rei do Bairro Alto", "Não posso mais" ou é "Preciso ter calma". Mas a ideia era mesmo acabar em uníssono. "Permitam-me que iluminemos o mundo a partir do Coliseu", disse Abrunhosa, o público erguendo-se e repetindo vezes sem conta "enquanto não há amanhã, ilumina-me".

E se há finais que funcionam há 25 anos, para quê privar deles o público? "Tudo o que eu te dou, tu me dás a mim."