Arte do Dia

Com a verdade me enganas (e com a arte também)

Com a verdade me enganas (e com a arte também)

Será a arte a mentira que nos permite conhecer a verdade, como dizia Picasso? No Dia dos Enganos, aqui ficam algumas obras cujas fronteiras entre a realidade e a ficção são tão difusas que se torna impossível saber onde acaba uma e começa a outra.

Dizemos não tolerar a mentira e, todavia, é no seu encalço que vamos quando abrimos um livro ou vemos um filme. A capa de autenticidade que apresentam é apenas isso, uma capa com a qual nos iludimos, julgando entrever uma realidade que, a existir, será tudo menos objetiva.

É em torno de algumas dessas dicotomias, mas não só, que Gonzalo Torrente Ballester escreveu "Eu não sou eu, evidentemente", uma das suas obras que merecia ser lida e partilhada com fervor.

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O romance desenvolve-se em torno da figura de Uxío Preto, um literato espanhol lido e estudado em diferentes partes do Mundo, mas cuja existência é tudo menos evidente. Terá o autor uma existência concreta ou será esta, afinal, uma justaposição de diferentes elementos?

É tão célebre quanto misterioso, coleciona seguidores na exata proporção oposta e as suas obras já atingem cifras de muitos milhões nas principais leiloeiras mundiais.

O artista em causa é, obviamente, Banksy, figura incorpórea que continua a ver a sua identidade oculta sob um manto de dúvidas.

Por toda a Internet estão espalhadas as mais variadas teorias sobre Banksy, mas poucos documentários são tão completos e fundamentados como o que foi transmitido recentemente na RTP:

Se quisermos abordar o Dia das Mentiras pelo prisma da fraude no entretenimento é forçoso falar-se nos Milli Vanilli. A dupla alemã que, no final dos anos 1980 e início da década seguinte, tomou de assalto os tops de todo o Mundo viria a ser desmascarada como um dos maiores embustes artísticos da História.

Afinal, Rob Pilatus e Fab Morvan eram uma farsa, emprestando o corpo a vozes que, na verdade, pertenciam a outros. Tudo não passou de um golpe engendrado pelo produtor Frank Farian, desejoso de criar um projeto que lhe rendesse os milhões de que se julgava merecedor:

Há várias obras que, de tão autênticas, quase parecem mentira. Com os míticos The Cramps temos essa ilusão quando assistimos ao início da gravação referente à sua atuação a 13 de junho no Napa State Mental Hospital, um hospício situado no estado da Califórnia.

As dúvidas desfazem-se à medida que os minutos passam e nos apercebemos, além do caráter quase artesanal do vídeo, do caráter real da assistência. Sim, são os próprios utentes do hospício que fazem parte da assistência, interagindo e interrompendo várias vezes a atuação da banda nova-iorquina.

"Dizem que vocês são loucos, mas, para mim, parecem-me perfeitamente normais", dispara um Lux Interior no final de um tema em que recorda os mais de três mil quilómetros feitos.

A gravação só foi divulgada seis anos depois e pode ser consultada em várias plataformas (incluindo o Youtube). Nessas imagens a preto e branco e de qualidade sofrível, a autenticidade do concerto impressiona mais do que tudo.

É muito provável que tenha sido nessa ocasião que os Cramps tocaram na eternidade.

A mentira pode ser também sinónimo de denúncia. Foi o que almejaram os Ministry em 2006, ao incluírem o tema "Lies lies lies" no seu décimo álbum de estúdio, "Rio Grande blood".

Com a adrenalina no auge e a subtileza enviada para as calendas, o sexteto de Chicago lança-se numa feroz diatribe política anti-George W. Bush e seus acólitos, acusando-os de serem os verdadeiros responsáveis dos atentados que vitimaram mais de três mil pessoas no 11 de setembro:

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