Cultura

Contra a crise, publicar

Contra a crise, publicar

Bags of Books e Paleta de Letras são os mais recentes projectos editoriais da área infanto-juvenil. Sediadas na Gafanha da Nazaré e em Braga, afirmam não recear a saturação do mercado e acreditam poder trazer um novo dinamismo a um segmento em franca evolução.

Se, até há poucas semanas, os dedos de uma só mão chegavam para contar os projectos editoriais consagrados na íntegra aos livros ilustrados (as galegas Kalandraka e OKO, bem como a Planeta Tangerina e a Bruáa), há agora mais duas protagonistas, ambas apostadas em fazer a diferença.

Como mais-valias para disputar um segmento que admitem ser já bastante competitivo, apresentam diferentes argumentos. Pedro Seromenho, gestor financeiro e editorial da Paleta das Letras, refere "a originalidade e a criatividade", mas, na hora de eleger o principal elemento distintivo, prefere destacar a proximidade com os autores - "os motores de tudo" -, criticando as congéneres "que os desprezam, ignoram as suas vontades e lhes sugam o brilho até este se extinguir. Connosco, isso jamais acontecerá".

A aposta "no aumento da diversidade e oferta de autores de qualidade" é, de acordo com Francisco Vaz da Silva, o princípio que rege a Bags of Books, cujo objectivo passa também por "trabalhar o livro ilustrado como algo que não é só dirigido às crianças. Vamos publicar alguns livros que muitos adultos gostarão de ter consigo. Afinal, todo o adulto traz dentro de si uma criança", acrescenta.

A entrada de novos intervenientes nesta área não surpreende o especialista na literatura para a infância e juventude José António Gomes, para quem "existiam algumas lacunas que têm vindo a ser preenchidas". Todavia, apesar do crescimento dos últimos anos, o crítico literário adverte para o risco de saturação que poderá surgir "caso sejam criadas outras editoras a breve trecho".

Mesmo com essa ameaça no horizonte, as editoras de pequeno e médio porte mostram uma capacidade de resistência assinalável, aponta o especialista. Ao contrário do que acontece com as editoras generalistas, mais permeáveis ao poderio dos grandes grupos editoriais, conseguem escoar parte significativa dos livros através da rede de livrarias especializadas. "Estes espaços preferem trabalhar com pequenas editoriais, em detrimento das maiores, porque não impõem tantas condições", observa.

É nessa certeza que radica parte do optimismo das novas editoras. Mas não só. Pedro Seromenho mostra-se convicto também de que o mercado editorial da literatura infanto-juvenil acaba por ser menos sensível às variações do poder de compra. "Os pais podem temporariamente deixar de ler, mas os seus filhos não. Estas novas gerações, mais informadas e competitivas, exigem o melhor. E os pais não lhes recusam nada", explica o editor, cuja decisão de levar por diante este novo projecto, sediado em Braga, não foi afectada pela presente crise: "É nos momentos mais difíceis que se tomam as maiores opções".

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As limitações do mercado editorial português não invalidam que o responsável da Bags of Books não exclua a possibilidade de "cooperar com outras editoras, sobretudo as mais pequenas, em projectos concretos", até porque "não viemos para combater ninguém, seja de que tamanho for".

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