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Convite para mergulhar no centro obscuro da Terra

Convite para mergulhar no centro obscuro da Terra

Já está nas salas portuguesas a experiência única de cinema que é "Das Profundezas", nova obra do italiano Michelangelo Frammartino que ganhou o Prémio Especial do Júri de Veneza 2022

É um quase milagre que um filme como "Das Profundezas" chegue às nossas salas de cinema, como o é também que, desde logo, o filme tenha sido feito. Ainda bem que estes dois milagres se tenham concretizado e é necessário agora que o espetador de cinema se dê conta do privilégio que é ter diante de si um filme como este.

Na realidade, os filmes que estreiam frequentemente nas salas ou são blockbusters de Hollywood, versões para cinema de títulos da Marvel, animações ou, no caso do cinema de autor, filmes de nomes consagrados ou com o aval de prémios maiores nos grandes festivais de cinema.

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"Das Profundezas", do italiano Michelangelo Frammartino, venceu, é certo, o Prémio Especial do Júri de Veneza e será por isso, e pela audácia do distribuidor nacional, que temos o privilégio de o ver. Mas, num mundo de cinema onde o guião tem um peso ditatorial, tudo parte afinal da coragem de um grupo de produtores que deu luz verde a um filme sem diálogos, com planos longos, passado numa gruta.

Mas "Das Profundezas" funciona, na sua abordagem entre Herzog e Straub, na viagem feita em 1961 por um grupo de espeleólogos ao que na altura era considerada a terceira gruta mais profunda do mundo, podendo descer-se até 700 metros de profundidade.

O filme acompanha de forma ficcional este grupo de homens que se deslocaram de um norte industrializado para a região da Calábria. O contraste económico é transversal ao filme, é esse contraste paisagístico e espiritual que o domina. Somos assim transportados, primeiro para um local onde o tempo, a vida e a morte, têm um ritmo diferente e, depois para o interior da própria gruta.

Dizer que terá sido uma rodagem difícil, do ponto de vista logístico, com as quatro horas diárias de regresso à superfície, não adiantaria qualidades ao filme, mas espelha os limites do mundo em que vivemos e os próprios limites de sobrevivência. Magnificamente iluminado pelo veterano suíço Renato Berta, é um desafio aos sentidos e um exemplo de que o cinema, e a criação artística, pode ser tudo o que quisermos.

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