Teatro

Cornucópia: "Não estamos a fazer pressão, nem a fazer uma jogada"

Cornucópia: "Não estamos a fazer pressão, nem a fazer uma jogada"

O ator e encenador Luís Miguel Cintra, fundador e diretor do Teatro da Cornucópia, afirmou que quem tem de voltar atrás ou não, no que respeita ao encerramento desta companhia, é o apoio do Estado.

Em declarações aos jornalistas, depois de ter estado à conversa com o presidente da República e com o ministro da Cultura, Luís Miguel Cintra, agradeceu que os dois tenham comparecido no Teatro da Cornucópia, em Lisboa, considerando que "é simpático e honroso, e é sintoma de que tomam o problema a sério".

Questionado se esse encontro muda a decisão de encerrar a companhia, respondeu que isso não depende de si, mas do Estado: "Não sei, são eles que decidem. Eu não posso saber o que é que vai mudar. Não sou eu que tenho de voltar atrás. Quem tem de voltar atrás ou não são as decisões de apoio do Estado".

"Vocês não percebem isso? Não estamos a fazer pressão, nem estamos a fazer uma jogada para conseguir aumento de subsídio, não tem nada a ver com isso. Tem a ver com uma situação concreta e real: com o dinheiro que a gente recebe, de há três anos para cá, não é possível esta casa funcionar", afirmou.

Luís Miguel Cintra manifestou-se descrente em relação à atuação dos políticos. "Oxalá desta vez queira dizer alguma coisa de diferente, porque há sempre, nas conversas que temos com as autoridades há muito tempo, sejam de que partido for, no fundo, um 'Big Brother', uma pessoa que não tem nome e que manda em tudo, uma pessoa ou uma entidade, e que é o dinheiro".

"E a resposta é sempre: eu queria fazer, mas não há dinheiro. Ninguém disse assim: não, não quero fazer porque vocês não prestam para nada. Vamos lá ver se não existe essa entidade que é esse 'Big Brother'", acrescentou.

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Segundo Luís Miguel Cintra, "mudou o Governo e entretanto este Governo não estudou o dossiê" da Cornucópia. "Não digo que seja o senhor ministro a estudar o dossiê da Cornucópia em especial, mas, enfim, os serviços deviam estar conscientes de tudo o que lá está, de explicações, de relatórios que provavelmente nunca ninguém leu, de contas bem feitas e não aldrabadas", lamentou.

Quanto à decisão de encerramento, disse que a Cornucópia trabalha "com a atenção e o cuidado que depois produz um espetáculo de uma certa qualidade", e não está disposta a pôr isso em causa, nem a contrair dívidas.

"Nós faremos sempre desta qualidade e com esta atenção. A partir do momento em que não conseguimos meios de financiamento, não podemos fazer. Não vamos é reduzir e fazer, como não sei quem dizia, com duas cadeiras e duas 't-shirts' um espetáculo em quinze dias. Disso, de facto, não gostamos", frisou.

O ator e encenador admitiu como hipótese "que a economia atual não permita outra coisa e que o público não exija sequer este tipo de coisas mais desenvolvidas e mais detalhadas". Nesse caso, "esta companhia já fez muita coisa, não vai agora ficar muito aflita porque não pode agora fazer mais", afirmou.

"O público, o Estado é que podem ficar aflitos de nos perder. Isso é um muito bom sintoma, percebendo que o caso era grave, que os representantes do setor no Governo e o representante máximo da autoridade político do país se desloquem aqui dispostos a discutir o assunto", considerou.

Sem programação anunciada para os próximos meses, a companhia de teatro decidiu pôr fim à atividade, com um recital de entrada gratuita, marcado para este sábado às 16 horas, a partir de textos do poeta francês Guillaume Apollinaire, com a participação de atores e músicos que trabalharam na companhia.

Uma hora antes da hora prevista, uma fila com mais de uma centena de pessoas era visível junto das portas do teatro, em pleno bairro do Príncipe Real.

Nem todas conseguiram assistir ao recital. Já decorria o espetáculo e outra centena de pessoas aguardava entrada no "hall" do teatro.

Com uma lotação de 115 lugares sentados (visivelmente ultrapassada), a sala do Teatro da Cornucópia encheu-se de uma plateia intergeracional, incluído várias crianças, e alguns notáveis. A assistir na primeira fila estavam nomes como Edite Estrela (deputada socialista), Rui Vieira Nery (musicólogo), Augusto M. Seabra (colunista e crítico), Rita Blanco (atriz) e Leonor Xavier (jornalista e escritora).

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