DDD - 5ª Edição

Dançar Beethoven, o eterno contemporâneo

Dançar Beethoven, o eterno contemporâneo

"Last", coreografia estreada no Teatro Viriato, em Viseu, em 2019, chega agora ao Porto.

Igor Stravinsky profetizou que as últimas composições completas de Beethoven seriam "eternamente contemporâneas". E a dupla São Castro e António M Cabrita inscreve-se numa extensa linhagem de artistas que foi comprovando essa profecia. "The late string quartets" estão na base de "Last", coreografia estreada no Teatro Viriato, em Viseu, em 2019, que resulta de uma co-produção do Teatro Municipal do Porto, Teatro Viriato e São Luiz Teatro Municipal.

Último capítulo de uma trilogia de espetáculos focados em conceitos concretos - o primeiro foi "Play false" (2014), que se ligava à palavra; seguindo-se "Rule of thirds" (2016), centrado na imagem -, "Last" escolheu a música como matéria coreográfica. A opção pelos últimos quartetos de Beethoven, compostos nos seus derradeiros anos de vida e já numa fase de absoluta surdez, foi justificada pelos diretores artísticos da Companhia Paulo Ribeiro pela sua exigência e complexidade: "A escolha tornou-se uma tarefa arriscada - é uma obra que expõe os últimos e mais privados pensamentos do compositor e é considerada uma das mais belas e complexas peças musicais de todos os tempos."

Para dar corpo aos quartetos, não bastavam os cinco intérpretes - Ana Moreno, Ester Gonçalves, Guilherme Leal, Miguel Santos e Rosana Ribeiro -, eram precisos músicos em cima do palco para oferecer ao público a oportunidade de "ouvir e visualizar" a obra, experiência que Beethoven não chegou a ter, e para que "testemunhasse a sua contemporaneidade através do que ela reflete sobre a inconstância, o caos, a beleza e a incerteza do nosso presente." O convite foi dirigido ao Quarteto de Cordas de Matosinhos, que se apresentará com Vítor Vieira, Juan Maggiorani (violinos), Jorge Alves (viola) e Marco Pereira (violoncelo).

No eixo coreográfico e dramatúrgico da peça está a dicotomia entre espaço público e espaço privado, tema presente na forma como Beethoven pensava a música, e que se manifesta em "Last" pela criação de um espaço privado entre os músicos e os bailarinos que se vai expandindo para o espaço público e formando o "trio perfeito", na visão dos coreógrafos: músicos, bailarinos e testemunhas.

Outro tema central em "Last" é a polissemia do próprio título, que tanto remete para "fim" como para "duração" e "continuidade". Um pouco como os quartetos de Beethoven, últimos na sua carreira e mal compreendidos no seu tempo - um compositor da época, Louis Spohr, considerou-os "indecifráveis e horrorosos" -, foram ganhando vitalidade com os séculos e inspirando outros compositores, como Béla Bartók ou Richard Wagner, que disse que o primeiro movimento do Opus 131 (considerado a obra-prima do conjunto) "revela o sentimento mais melancólico alguma vez expresso pela música."

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