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De grão a grão se faz o universo

De grão a grão se faz o universo

"Mundo", novo livro de poesia de Ana Luísa Amaral, assenta num diálogo íntimo com a realidade. Seja numa escala ínfima ou tão vasta como o universo.

Quantos mundos cabem, afinal, no mundo poético de Ana Luísa Amaral? A pergunta impõe-se, de forma quase imediata, ao leitor do seu novo livro - precisamente intitulado "Mundo" -, confrontado com a alternância de ambientes, temáticas e estados de alma que o assolam e instigam de forma constante.

Por maior que seja a tentação de respondermos com um número alto, a solução, talvez surpreendente, é a oposta. Porque no mundo uno da poetisa, ensaísta e tradutora nada lhe é exterior: da formiga laboriosa que carrega o alimento para si e para os seus à nossa própria insignificância quando observamos a vastidão dos céus, há um espanto permanente pelo milagre contínuo da vida.

Tal como William Blake instava a que se visse o Mundo num grão de areia, também Ana Luísa Amaral participa dessa procura sem fim, munida por uma curiosidade e um amplo sentido de pertença comum que a levam a devotar atenção idêntica quer à insignificante agulha quer ao buraco negro cósmico.

"E nós, borboletas na luz, / moscas defronte a vidro / zumbindo na atração da paisagem de fora, / teimando entrar no vidro / ignorantes da sua transparência", escreve no poema "Buraco negro: o silêncio do escuro".

A "partilha deste sossego" atravessa os cinco capítulos de "Mundo", cada qual contendo o seu próprio mundo. Na primeira parte, uma das mais sedutoras, a pureza e a força animais conferem-lhe uma energia muito próxima do arrebatamento, versem sobre centopeias, aranhas, peixes ou abelhas.

O esplendor do quotidiano entra pelos poemas adentro no capítulo "Experiências e evidências", cujo apogeu é muito provavelmente o magnífico "A mesa": "A minha pátria / é esta sala que dá para a varanda, / e é também a varanda com as suas flores / que vão e vêm meses fora, e eu vejo luminosas / mesmo quando se tornam cor / de vento triste".

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A totalidade a que aspiram os poemas faz com que, nos restantes capítulos, estejam representados tanto episódios idos da infância, mas cujo impacto foi capaz de prolongar-se pelos anos fora, como acontecimentos históricos tão tragicamente incontornáveis
como o Holocausto. Sempre filtrados pela lente difusa mas ao mesmo tempo reveladora que é a poesia.

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