Cinema

Denis Côté: "Lisboa tem um lugar muito especial no meu coração"

Denis Côté: "Lisboa tem um lugar muito especial no meu coração"

Já está em exibição "Higiene Social", o novo filme do cineasta canadiano.

Denis Côté é um autor várias vezes premiado em Berlim, objeto de culto por uma vasta legião de fãs, seduzidos pelo seu cinema corrosivo e pouco convencional, de que são exemplo filmes como "Bestiaire" ou "Vic + Flo viram um urso". Presença constante em festivais nacionais, autor de um segmento do filme "Aqui em Lisboa, episódios da vida de uma cidade", Côté venceu com "Higiene social" o prémio de realização na recente Berlinale. O filme chegou agora às nossas salas e se pensa que já viu tudo, está enganado. No meio do campo, um jovem ladrão, Antonin, tem um duelo de palavras com cinco mulheres: a irmã, a esposa, a amante, uma inspetora das finanças e uma vítima. Todas à distância. Um filme sobre a pandemia? O realizador explica.

"Higiene social" parece o filme perfeito para os tempos de pandemia.

É apenas premonitório. Em novembro de 2015 fui a um pequeno festival em Sarajevo e decidi ficar um mês. Todas as manhãs escrevia longos diálogos mesmo sem ter a intenção de fazer um filme. Não havia nenhuma espécie de narrativa. Quando voltei para Montréal pus esses diálogos na gaveta. Já durante a pandemia, uma atriz perguntou-me se tinha algum projeto. E lembrei-me daquelas páginas todas.

Como é que transformou essas páginas em filme?

Quando ela as leu disse-me para não tocar em nada. Subitamente, era um projeto novo, mas por acidente. Decidimos fazê-lo no verão passado, sem qualquer regra e sem mudar nada. Eram planos muito longos e tínhamos de filmar em quatro dias, sem dinheiro.

Mas o título refere-se a este novo conceito de distância social.

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O mais engraçado é que há cinco anos já se chamava "Higiene social". E estava planeado para atores longe uns dos outros e longe da câmara.

O Denis consegue contar uma história de uma forma completamente diferente, e resulta mesmo. Como é que acreditou que podia resultar?

Estou um pouco surpreendido que diga que é uma história. Eu chamar-lhe-ia mais uma observação, monólogos, um exorcismo dândi. Por isso não lhe sei dizer muita coisa sobre a forma de contar uma história. Quando terminei o filme perguntei-me, o que é isto? Não é nada de político, de social, nem um comentário sobre a pandemia. Mas acaba por o ser.

Como é que trabalhou com os atores? Eles estão longe uns dos outros, não se tocam.

Eu estava um pouco de mãos atadas porque não podia intervir muito. Não podia sair de casa. No meio do verão tivemos dois encontros, em casa de um dos atores, quando os números da pandemia começaram a baixar. Disse-lhes que iam estar distanciados uns dos outros, não por causa da pandemia mas pela forma do filme. E são todos do teatro. Não podia escolher gente que viesse só da televisão ou do cinema. O Maxim Gaudette teve dois meses para decorar 45 páginas. Eu estava aterrorizado, ele estava aterrorizado.

Porque decidiu filmar neste tipo de paisagens?

Tudo o que dizemos hoje deve ser o correto, a maneira como nos mexemos deve ser a correta. Estamos constantemente a ser analisados pelas pessoas à nossa volta. Foi por isso que decidi colocar os atores no meio de lado nenhum, sem medo de que alguém os estivesse a ver e a julgar. Parecem figurinhas, estão longe da câmara, não mostro muito os rostos deles, o mais importante é a palavra. Há um prazer de brincar com as palavras.

Existe também um certo paradoxo temporal. Não é um filme de época, mas a esposa veste-se como se estivesse numa outra era, apesar de falar do Facebook.

Quis jogar com o tempo e com o espaço. Foi muito divertido jogar com isso. Fomos buscar o guarda-roupa a várias companhias de teatro e nem quis saber de que época eram. A ideia é mostrar como as relações humanas foram sempre complicadas, não quis confundir o espectador.

Pode recordar os momentos que passou em Lisboa?

Acho que Lisboa é a cidade onde estive mais vezes. Lisboa tem um lugar muito especial no meu coração. E encontro sempre pessoas diferentes. Quando vou a um país, é sempre o mesmo festival, as mesmas pessoas. Em Lisboa, conheci as pessoas do Indie, do Doc, conheci o produtor que me ajudou a fazer a curta-metragem, conheci a equipa de filmagem. Há sempre algo de novo quando vou a Lisboa.

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