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Dentro da oficina dos mestres da escrita

Dentro da oficina dos mestres da escrita

Doze escritores revelam no livro "Primeira pessoa do singular" os seus métodos de trabalho e as formas de inspiração preferenciais. A autora, Ana Araújo, afirmou ao JN que os escritores "têm os sentidos bem apurados para que um detalhe banal do dia a dia se transfigure num texto literário".

Como é que uma ideia se insinua ou afirma na mente de quem escreve? A poeta Adília Lopes fala de "uma imagem", seguida de um "ditado interior"; o dramaturgo Abel Neves prefere fazer referência a "um trabalho diário" que inclui "a convocação de sinais para a escrita"; o romancista e contista Mário de Carvalho" defende, por sua vez, que a inspiração não aparece necessariamente como uma visão ou um voz: "Às vezes, resulta de um estímulo banal e quotidiano".

Um a um, 12 escritores que a professora universitária Ana Araújo inquiriu para o livro "Primeira pessoa do singular" (publicado no final do mês passado pela Guerra & Paz) vão partilhando o seu método criativo, formas de trabalhar e até gostos ou superstições associados ao mister da escrita.

De Jorge Palma a Lídia Jorge, de Nuno Júdice a Luísa Costa Gomes, abordam-se técnicas, estilos ou hábitos para que o texto final se aproxime um pouco mais da imagem ideal, para muitos inultrapassável.


Vê este seu livro, antes de mais, como uma festa da literatura?
Nem por isso. Vejo este livro como o primeiro volume de uma série de entrevistas àqueles que mais se destacaram na paisagem artística e cultural do século XX em Portugal. Comecei pelos escritores por ser o ramo ao qual estou mais afetivamente ligada.

Quão diferente era a ideia inicial que tinha para o livro do resultado final que acabou por ter?

O resultado final acabou por corresponder, em larga medida, à ideia inicial: um prefácio sobre a importância do verbo documentar escrito pela pessoa cujo génio criativo mais se tem destacado na arte do documentário, Miguel Gonçalves Mendes; uma apresentação que contextualizasse esta proposta e, então sim, a palavra dada a estes 12 autores que, respondendo às mesmas questões, estariam como que à volta de uma mesa. Foi também com o intuito de cultivar alguma proximidade que pensei na pergunta 9. (onde cada um foi convidado a comentar uma citação de um outro colega) como se de uma conversa se tratasse. Aliás, as aproximações e distanciamentos de uns e outros, ou de uns aos outros, é absolutamente reveladora de que é a partir do confronto que as ideias avançam.

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O critério da escolha dos 12 nomes foi o seu gosto pessoal ou a importância no meio?

Sendo este o primeiro volume de uma coleção dedicada àqueles que fizeram o século XX no que diz respeito às artes e à cultura em Portugal, o primeiro grande critério orientador foi o cronológico. Procurei autores cuja data de publicação da primeira obra tenha sido nesse período. A escolha, como sabe, é vastíssima e só não seria maior porque infelizmente muitos deles já partiram. Depois, procurei um equilíbrio entre autores de texto dramático, poético e narrativo e segui a minha pesquisa orientada pelos seguintes critérios: dimensão da voz literária, valor estético da obra, traço de portugalidade aliado a um sentido de universalidade e, por último, a exploração das temáticas da memória e da história nessas mesmas obras. Tenho noção de que poderiam igualmente ter sido convidados outros autores com base nestes critérios, e não nego que haja inevitavelmente algum gosto pessoal por detrás desta escolha, mas no início, quanto este projeto só existia na minha cabeça, 12 pareceu-me ser um número já bastante simpático.

Na apresentação do livro elenca uma série de pontos comuns de contacto entre todos os autores. Acha que, por mais acentuadas que sejam as diferenças entre eles, há princípios que todos partilham?

Penso que sim. Destacaria talvez a predisposição para a observação do quotidiano, aliada a uma rigorosa disciplina de trabalho.

O seu grau de intervenção enquanto entrevistadora é muito reduzido. Por que optou por este modelo?
O grau de intervenção reduzido a que se refere foi, na verdade, propositado. Procurei propor um tema, dar a palavra e, sobretudo, espaço para que essa palavra se desenvolvesse. Não quis interferir ou condicionar a linha de pensamento. No fundo, dei apenas o mote e cada um dos entrevistados levou o tema para onde quis.

Como afirma, existem poucos obras similares a esta em Portugal. Como explica essa lacuna e quais as consequências que ela acaba por provocar?

De acordo com algumas editoras a quem apresentei este trabalho, entrevistas a autores não são motivo de interesse para o grande público. Não sei se será por esse motivo que não existem mais publicações deste género. O que sei é que as que foram publicadas optaram por uma abordagem individualizada, com base na vida e na obra do autor. O formato que "Primeira pessoa do singular" sugere é distinto por apresentar um guião comum e, nessa medida, acaba por trazer uma leitura também ela diferente.

Ao cabo destas 12 entrevistas, chegou a alguma conclusão quanto à origem da inspiração artística e literária?

Sim, no fundo aquilo que todos os autores entrevistados referem é que, embora o estímulo possa ser distinto, ele existe (felizmente, como frisa Luísa Costa Gomes) e o autor está predisposto a senti-lo. Parece-me que todos têm os sentidos bem apurados para que um detalhe banal do dia a dia se transfigure em algo que venha a resultar num texto literário.

Poucos autores responderam afirmativamente quando questionados sobre a imortalidade da sua obra. Acredita que isso se deveu a modéstia ou algo mais?

Penso que não terá sido modéstia, mas antes uma profunda consciência de que somos efetivamente uma ínfima parte de um todo que nos ultrapassa. José Saramago partilhava dessa mesma opinião e disse-a de forma bem clara quando afirmou, em "José e Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes, que "o universo nem sequer se dará conta de que nós existimos. O universo não saberá que Homero escreveu a Ilíada." Acredito que a maioria destes 12 autores pensa da mesma forma.

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