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"Descanso na tua voz" e os sete monólogos escutados ao baloiço

"Descanso na tua voz" e os sete monólogos escutados ao baloiço

Peça da companhia Cão Danado convida o público a integrar-se em várias histórias.

O distanciamento social que dominou as relações nos últimos dois anos e que tanto dificultou a realização de espetáculos encontra uma resposta radical em "Descanso na tua voz", proposta que coloca o público a centímetros dos atores - há apenas um acrílico a separá-los - e lhe permite observar cada ínfimo movimento do rosto, cada suspiro e cada lágrima. Por trás da máscara, são também os olhos e os gestos do observador que ali se expõem, influenciando o rumo da performance.

O esquema dos sete monólogos escritos por Eduardo Brito e encenados por Diana Sá, numa produção da companhia Cão Danado, materializa-se em sete baloiços onde aguardam sete atores. Grupos de dez espectadores sobem ao palco e cada pessoa escolhe um baloiço, onde se senta diante do ator. Ouve a história, de olhos encaixados com os do ator, e muda de baloiço para escutar novo intérprete. Pode percorrer os setes baloiços ou ir-se embora quando lhe aprouver. Haverá diversos turnos por dia seguindo esta dinâmica, que lembra as sessões contínuas do Microteatro de Madrid, onde é também favorecida a relação de intimidade com os atores. Não sendo exatamente obrigado a participar, pelo menos em todas as histórias, é inevitável a envolvência do espectador no destino emocional de cada encontro.

Desafiados a repetirem o seu monólogo dezenas de vezes em poucas horas, este é um trabalho de enorme exigência para os intérpretes, forçados também a doses variáveis de improviso conforme decorra a interação com o público. De que falam eles? Desde problemas lógicos relacionados com o queijo a memórias familiares tchekhovianas, passando por estratégias para evitar cães ferozes. Há ecos entre as diferentes histórias, mas cada uma tem existência autónoma. As mais significativas talvez sejam a da mulher que se tortura por ter atropelado um homem - "se ao menos ele fosse um canalha" - e a do brasileiro que se assume como portuense xenófobo, culpando o outro por todas as misérias, numa curiosa filosofia a que chama "outrificação". Eis um espetáculo singular e que nos impele à reaproximação.


Descanso na tua voz

Teatro Rivoli, Porto

Até sábado 12

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