Entrevista

D"Innocenzo: "O humor é uma forma de sobrevivência"

D"Innocenzo: "O humor é uma forma de sobrevivência"

"Contos de um Verão Negro" de Fabio e Damiano D"Innocenzo já está nos cinemas

Subúrbios de Roma. Famílias da classe média. Códigos em rutura e comportamentos desviantes. Um grupo de crianças à parte. Tensões que se acumulam, dando lugar a um final inesperado. Ou talvez não. Como o título indica, "Contos de um Verão Negro" é uma fábula ao contrário. Ou então é como devia ser. Segunda longa-metragem dos gémeos italianos Fabio e Damiano D"Innocenzo, que também colaboraram na escrita do argumento de "Dogman", e Matteo Garrone, o filme venceu o Urso de Prata de Berlim para Melhor Argumento. "Contos de um Verão Negro", já nas salas, é um filme imperdível. Os irmãos D"Innocenzo explicam ao JN porquê.

De onde vem o vosso sentido de humor? Já eram assim quando eram miúdos?

Damiano D"Innocenzo (D) - Sim, nós crescemos numa família muito particular. Perdemos os nossos tios quando ainda éramos muito pequenos. A nossa família viveu diversas tragédias. Para nós, o humor era uma forma de sobreviver. É um humor por vezes muito negro, macabro mesmo, aquele que é mostrado nos nossos filmes. Mas sabemos que não é para todos os gostos.

O vosso filme é magnífico, mas ficamos a odiar os protagonistas...

Fabio D"Innocenzo (F) - Nós também. Mas são seres humanos como nós, cheios de contradições. Quando pomos uma etiqueta qualquer numa pessoa, não devemos esquecer-nos que todos somos um conjunto de contradições.

Por que escolheram situar a vossa história na classe média dos subúrbios? Tem a ver com a vossa própria experiência?

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Fabio - O nosso primeiro filme passava-se numa outra classe social e a maior parte das pessoas não se sentiu envolvida na história. Mas todos nós pertencemos, de algum modo, à classe média, baixa ou alta, e não podemos dizer que o filme não tem nada a ver connosco. Estas são pessoas que nunca suspeitávamos serem capazes de tais atos, pessoas que normalmente só vemos na televisão.

E os subúrbios?

Fabio - Visualmente era mais interessante, liga-nos às nossas fantasias de infância, aquelas casas com uns telhados particulares e com muros em madeira. Lembro-me de em criança ver o "Eduardo Mãos de Tesoura", do Tim Burton.

Como é que trabalharam com as crianças, nomeadamente os diálogos mais crus? Eles estavam completamente cientes de onde a história os levaria?

Damiano - Os pais leram o guião. O que lhes dissemos foi para os filhos não lerem o guião. Todos os dias, ao chegarem às filmagens, dávamos-lhes os diálogos e explicávamos-lhes as cenas. Foi uma enorme responsabilidade para nós explicar toda a linguagem sexual.

Tiveram de ser como pais para eles...

Damiano - Ainda não temos filhos mas sentimos a dificuldade de discutir estes temas com eles. E a mesma coisa com as cenas de violência. Mas achamos que a melhor forma de os preparar para a vida não é protegê-los, é contar-lhes a verdade.

Os atores adultos também são magníficos...

Fabio - Acreditamos que os atores devem estar mentalmente preparados. Pedimos-lhes para se despirem de um ponto de vista emocional. Para fazer isso com um ator é preciso chegar a um acordo, baseado numa confiança mútua, e que é fundamental para nós. Os atores são a nossa prioridade. Sabemos que eles precisam de tempo para atingir a temperatura dramática certa, o que num filme como este é bastante complexo.

O Elio Germano já é uma estrela em Itália...

Fabio - Sim, mas quando teve de fazer a cena do clímax pediu para ficar sozinho durannte meia hora, para meditar. Depois veio interpretar a cena e só tivemos de fazer dois takes, o que quer dizer que ele estava preparado para interpretar a personagem naquele momento.

É verdade que o penteado do Elio Germano se inspirou no Francesco Totti?

Damiano - Absolutamente. Nós também desenhamos e fazemos o storyboard. E desenhamos o visual de todas as personagens. O Elio Germano é um rosto muito conhecido em Itália e não queríamos que estivesse igual ao que já fez, onde tem aquela beleza clássica que queríamos mudar. Por isso, inspirámo-nos no penteado horrível que o Francesco Totti tem e que conhecemos da Roma e da seleção italiana. A personagem do Elio é muito marcial, precisava de um aspeto assim duro.

Como chegaram a este modelo de fábula negra para contar a vossa história?

Fabio - Não o fizemos de uma forma académica ou escolar. Partimos, sim, de algumas memórias e reminiscências, como as fábulas dos irmãos Grimm ou as fábulas russas, que lemos quando éramos crianças. Ainda nos lembramos do choque que era quando chegávamos ao fim, havia sempre um final emocionante, por vezes cru. Mas eram muito educativos. Hoje os contos de fadas tendem a proteger as crianças, quando antes eram uma espécie de kit de sobrevivência para crianças.

No filme nota-se uma certa influência da cultura norte-americana...

Fabio - A visão dos miúdos corresponde à visão que eu e o Damiano tínhamos quando éramos crianças. A influência americana vem das nossas leituras, Carver, Updike, Yates, em que o retrato da classe média, com esse sentimento permanente de opressão, se vai construindo na narrativa a pouco e pouco. A mistura com a nossa herança italiana
era perfeita como veículo para histórias que ultrapassam as nossas próprias histórias e que os espetadores, mais do que apenas identificarem-se, podem ver como espelhos das suas próprias vidas.

Como é que trabalham em conjunto? Têm tarefas separadas ou é tudo muito mais orgânico?

Damiano - Trabalhamos de forma muito instintiva e nada programada. Tudo depende da cena ou do estado de espírito de cada um de nós em cada momento. Somos gémeos, por isso basta olharmos um para o outro para compreendermos se uma coisa funciona ou não. Não temos tarefas divididas. Umas vezes sou eu a lidar com a câmara, outras vezes é o meu irmão. Isso permite-nos ser muito flexíveis e lidar com todos os problemas que um filme implica.

Apesar de já ter sido escrito há alguns anos, o filme pode ser considerado um retrato da sociedade italiana de hoje?

Damiano - A sociedade italiana sempre foi assim. Mas não quisemos fazer uma abordagem sociológica nem associar o filme a um período específico, para que pudesse sobreviver e não ficasse datado. Queremos que os nossos filmes sejam eternos, como os de Cassavetes. É por isso que nos focamos em seres humanos que não mudam com o tempo.

Fabio - É verdade que estas crianças sofreram vinte anos de governo de Berlusconi, com tudo o que isso implica de promoção de uma atitude de macho, de superioridade masculina e que não tem de mostrar as suas emoções. Isso tornou-se moda. São valores ridículos que impedem as crianças de crescerem com os valores da verdade, da
sensibilidade, da ternura. Como se a sensibilidade estivesse fora de moda nos dias que correm.

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