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Diogo Dória: "São os silêncios que dão peso à palavra"

Diogo Dória: "São os silêncios que dão peso à palavra"

Sempre que aceita um trabalho como ator Diogo Dória privilegia aquele em que a palavra exige a concentração do espectador. E tanto faz que seja teatro ou cinema, onde se estreou pela mão de Manoel de Oliveira. Ao JN, confessa que sente a mesma responsabilidade em qualquer um dos dois formatos.

A atenção sobre o trabalho de ator é a sua baliza para os desafios que lhe têm sido feitos. O mais recente veio da Companhia Chão de Oliva, de Sintra, para encenar "Na solidão dos campos de algodão", de Bernard-Marie Koltès, que aceitou e que está em cena até dia 20 na sede daquela estrutura.

A peça, que parte de um texto do autor francês, conta um encontro entre um dealer e um cliente, mas não se sabe nada do negócio em causa. "É uma peça que privilegia a palavra, mas que nunca dá respostas. Um dos encantos do texto é manter o sentido em suspenso", explica o encenador.

O curioso é que a peça "Na solidão dos campos de algodão" não é estranha a Diogo Dória. Em 2006 fez de cliente na encenação do francês Philip Boulay. Agora, 13 anos depois, além de encenar, inverteu os papéis, fazendo de dealer e deixando o de cliente para o jovem ator Andrè Loubet.

"A tendência no teatro é, muitas vezes, a de passar por cima do texto, retirar-lhe importância. O que me dá gozo é encontrar formas de dizer, é a contracena", explica Diogo Dória, para quem uma das características interessantes desta peça "é a de juntar uma linguagem chã com uma linguagem poética. Caldear isso foi um desafio". Outro foi o de o texto não ter ação propriamente dita. "As ações são interiores. Passam-se na cabeça de cada uma das personagens. Como pano de fundo, há o amor ou a falta dele. "É difícil encontrar um autor em que a obra e a vida estejam tão juntas".

Privilegiar o texto

Koltès achava o texto inexequível para teatro. Se não fosse o seu amigo Patrice Chéreau a insistir, talvez a peça nunca tivesse sido feita. "Não foi uma peça escrita propositadamente para ser levada ao palco, o que é interessante. Os meus textos preferidos muitas vezes são aqueles que não são escritos para teatro."

Já no que diz respeito ao cinema, as prioridades não são o guião propriamente dito, mas sim o realizador. "É o trabalho deste que me interessa. Por isso gostei tanto de trabalhar com Manoel de Oliveira. Foi com ele que me estreei, no filme "Francisca". Tive a sorte de começar logo com uma obra-prima. E foi muito forte esse encontro", confessa.

"Manoel de Oliveira era extraordinário. Não fazia distinção entre celebridades quando estava a filmar. Tratava todos da mesma maneira. E tinha indubitavelmente um amor incomensurável pelo cinema".

Além dos filmes que fez com o mestre portuense, falecido em 2015, Diogo Dória tem mantido uma relação constante com a sétima arte. Recentemente, fez parte do elenco de "A herdade", de Tiago Guedes (o filme representa Portugal nos Oscars na categoria de melhor filme estrangeiro em 2020) e de "Raiva", de Sérgio Trefaut .

"São dos filmes mais interessantes que se fizeram recentemente. Ambos dão atenção ao trabalho do ator. E ambos têm algo que também faz falta no teatro, que são os silêncios. São eles que dão peso à palavra".

Diogo Dória estreou-se como ator em 1975, tendo, desde então, trabalhado com encenadores como Osório Mateus, Luís Miguel Cintra, Filipe La Féria, José Luis Gómez, Solveig Nordlund, Carlos Fernando, Dominique Ducos, Miguel Guilherme. No cinema, participou em filmes de Manoel de Oliveira, João Botelho, João Canijo, Jorge Silva Melo, Raoul Ruiz e Wim Wenders. Dirigiu vários espetáculos, designadamente com textos de Samuel Beckett, Nathalie Sarraute, Robert Pinget, Koltès e Almeida Faria.