"Eu Fico em Casa"

Do fado ao pop, chega o último dia do festival de música nas redes sociais

Do fado ao pop, chega o último dia do festival de música nas redes sociais

O sexto e último dia do festival "Eu Fico em Casa" encerrou em grande o ciclo de concertos, que arrecadaram milhares de visualizadores que, a partir das suas casas, puderam ouvir o que de melhor se faz na música portuguesa.

Desde terça-feira, nomes como Diogo Piçarra, Ana Bacalhau, Rui Massena, David Fonseca e Carolina Deslandes "pisaram" o palco virtual do festival Eu Fico em Casa, que tem como objetivo incentivar a população a ficar em casa como medida de contenção perante o mais recente surto de Covid-19, para além de manter a industrial cultural viva num momento de adiamentos e cancelamentos de concertos e espetáculos.

Hoje, para findar o festival, ouviram-se mais 12 concertos de meia hora, de artistas como Júlio Resende, Selma Uamusse, Ana Moura, David Carreira, Luísa Sobral e Tiago Bettencourt.

Júlio Resende toca de luvas em mãos

Ontem, o momento dedicado ao piano a solo coube a Rui Massena. Hoje, foi Júlio Resende a deliciar as audiências virtuais com um momento de virtuosismo, junto com uma mensagem de agradecimento geral a todos os profissionais de saúde, de luvas nas mãos como gesto simbólico.

Prontamente o pianista partiu para "Blowing in the wind" e "Mano a mano". As teclas do piano iam marcando um momento de quase intimidade com o artista, um estilo de concerto onde cabem milhares de pessoas na linha da frente do público, a poucos metros do palco, e transmitem de maneira profunda a mensagem de todo este festival: um apelo geral à autorreflexão e a conseguir tirar o melhor destes dias de incerteza e medo.

Ouviu-se ainda "Tema bonito para o Salvador", e "A day of sun", canção interpretada pelos Alexander Search, banda da qual Resende faz parte com Salvador Sobral. Canção (e banda, por sinal) esta que se baseia num poema de Fernando Pessoa, um cruzamento cultural não raro a este festival, não tivesse Rui Massena feito algo semelhante no dia anterior com o tema "Estrada".

Selma Uamusse reza por Moçambique e pelo mundo

De preces viradas não so para Portugal e para o mundo, mas em especial para a sua terra natal, Moçambique, Selma Uamusse mostra-se num belo cenário iluminado com o seu habitual bom humor.

Para começar e quase como "um presente para os que chegaram primeiro", Selma Uamusse deliciou a audiência com "Kanimambo", tema do seu próximo álbum, que a mesma confessa não saber, como fruto da crise que vivemos, quando será lançado. A batida dos tambores e a voz suave de Selma Uamusse serviram de pano para envolver as mensagens de fé e esperança que a artista ia partilhando à medida que interpretava temas como "Hope" e "Mati". É impossível ficar quieto num concerto de Selma Uamusse, mesmo que seja através das redes sociais. O nosso corpo obedece à batida e aos sons da música da moçambicana, fazendo-nos esquecer durante meia hora o facto de alguns estarem encerrados em casa há já vários dias. Aparentemente, a artista também não conseguiu controlar essa vontade, levantando-se, colocando uma saia tradicional moçambicana e interpretando, com direito a coreografia e tudo, "Ngono Utana Vuna". Da festividade, e acompanhada pelo marido, saltou-se para a morte e para a reflexão sobre a vida, com "Mónica".

Num registo completamente diferente, deixando atrás as sonoridades africanas, mas mantendo ainda a mensagem de esperança e fé num futuro "brilhante", Selma Uamusse despediu-se com "I can see clearly now", tema original de Johnny Nash, e "Song of Africa", tema também do próximo álbum.

Ana Moura e o fado dos nossos dias

Dos ritmos africanos ao fado, este festival junta variados estilos musicais, e Ana Moura traz o seu grão de areia a partir da sua sala, acompanhada, como tantos artistas até agora, por família e amigos, para além de, como já é também costume neste tipo de concertos, o seu gato.

A potentíssima voz de Ana Moura fez-se sentir, para começar o concerto, com covers de "Boa noite solidão", de Mariza, "Mona Ki Ngi Xica", de Bonga e "I"d rather go blind", de Etta James. Seguiu-se ainda "Vinte vinte", "Desfado" e "Fado Loucura".

Para se despedir, num concerto que pecou pela instalação sonora preparada para uma casa de fados, mas não para os smartphones, Ana Moura interpretou "Creio", tema inspirado no poema homónimo de Natália Correia, e "Estranha forma de vida".

David Carreira colabora em direto

Desde a sua sala e acompanhado, o cabeça de cartaz deu um concerto intimista, confessadamente desacostumado a este género de concertos.

Após interpretar "És só tu", o artista decidiu incluir alguns dos espetadores que se faziam sentir nos comentários ao vivo no concerto, junto de si. Seguiu-se uma versão acústica de "A minha cama" e, mantendo o ambiente de interação, David Carreira chamou Mr. Marley, produtor, para ter uma breve conversa a meio do concerto, que teve direito a uma interpretação de "Tu e eu", tema dos Supa Squad. Depois de acabar a breve conversa quase de café com Mr. Marley, Carreira seguiu para "O problema é que ela é linda", "Cuido de você" e "In love". Pelo meio, o artista decidiu fazer também "conversa de café" com a sua irmã, Sara Carreira, que incluiu em direto no seu concerto. Depois, para se despedir, o membro do clã Carreira cantou "Primeira dama" e "Do jeito dela".

Se Samuel Úria pouco falou e muito cantou, David Carreira decidiu ir pelo caminho contrário, dedicando o seu tempo a interagir com os seus fãs, amigos e família.

Luísa Sobral encanta tão só com guitarra e voz

De guitarra na mão, Luísa Sobral foi diretamente ao assunto, em modo sóbrio e deliciosamente simples, no seu formato mais intimista possível.

"Maria do mar" abriu o concerto, tema que transporta com cada acorde o som das ondas do mar, um balanço que nos transporta para alto-mar na voz de Luísa Sobral. Seguiu-se "O melhor presente" e "Buquê de flores", tema ainda não gravado (a não ser nos corações de quem ouviu em primeira mão), que a cantautora confessa ter sido escrito para "dar", mas que acabou por ser devolvido.

Em resposta à atual crise que o país vive, "O bicho" invadiu as casas de quem assistia ao concerto de Luísa Sobral. O medo e a incerteza associados a esta situação que se vive foram um elemento constante no concerto de Luísa Sobral que, com o seu bom humor, decidiu alterar o tom para algo mais alegre, de "guitalele" em mãos, com o tema "Para ti", que dedicou às mães e futuras mães. Houve ainda tempo para "O verdadeiro amor", "João" e, "para não dizerem que não toquei", o refrão de "Xico".

O concerto de Luísa Sobral comprova assim que não é o complexo aparato tecnológico e técnico que faz os bons concertos, mas sim o sentimento e a emoção que cada um dos temas da setlist carrega em si, para além do investimento emocional com que o artista se dedica à sua interpretação.

Tiago Bettencourt abraça audiência com mensagens de introspeção

"Vou tentar falar pouco e tocar muito", promete logo de início Tiago Bettencourt antes de começar a tocar "Partimos a pedra", que, sem espaço para interrupções, precedeu "Se me deixares ser". A voz de Bettencourt abraça os ouvintes, nomeadamente aqueles que seguiram a sua sugestão de utilizar headphones, num bonito momento em que nos sentimos próximos, ainda que através das redes sociais.

Como não podia faltar num concerto de Tiago Bettencourt, pronto se ouviram os primeiros acordes do seu famoso cover da "Canção de Engate", original de António Variações, seguindo-se um outro cover, desta vez de "Bola de cristal", dos Toranja. "Sol de março", um tema que, segundo Tiago Bettencourt, "renasceu das cinzas", e serve como exame de retrospeção, um olhar interno que é tão importante nos dias que vivemos.

"Nós temos só que ficar em casa", uma frase tão repetida, mas tão importante, abriu caminho para "O jardim", uma canção sobre "cuidarmos uns dos outros", e "Trégua", tema do próximo álbum de Tiago Bettencourt que, como acontece atualmente com muitos, não se sabe quando será lançado, e do qual também surgiu a canção seguinte no alinhamento: "Imaginei", que aponta o dedo à sociedade que vive nas redes sociais e se desliga da realidade, falando de "descobrir através deste momento tão sombrio, umas luzinhas das que andávamos à procura". Para finalizar, Bettencourt fez uma curta homenagem a Kenny Rogers, cantor country que faleceu na passada sexta-feira (20), com um cover de "We"ve got tonight".

Desta forma, e com um DJ set de Xinobi para concluir, estão dados os mais de 70 concertos do festival Eu Fico em Casa. Foram muitos géneros, desde o fado ao indie, passando pelo Rock and Roll e pelo Hip Hop. Foram muitos gatos, muitos copos de vinho e muitos, muitos sofás.

Um estonteante número de espetadores e um grupo bem encorpado de artistas que se juntaram por um só propósito: ficar em casa e incentivar a ficar em casa. Num momento de incerteza sobre o futuro, os vários intervenientes neste festival deixaram mensagens de apoio, de fé, de esperança e acima de tudo de amor, tanto a quem trabalha todos os dias para travar o alastrar deste novo coronavírus, como a quem se vê confinado nas suas casas. Esta foi a primeira edição de vários festivais "online" que proliferarão durante as próximas semanas nas redes sociais, como o "Eu Danço em Casa" e a "Rádio Play it Safe", promovida pela Gig Club.

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