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Pilar, a mulher a quem Saramago se confiou

Pilar, a mulher a quem Saramago se confiou

Não estava ali à mão, no início do caminho de Saramago, a mulher que, contou Violante, filha única do escritor, o haveria de tornar "mais acessível, mais aberto, capaz de derramar os sentimentos e de abandonar a sua habitual atitude de defesa". Não estava ali à mão Pilar, espanhola de Andaluzia, jornalista de 36 anos; ele já com 64 e com dois casamentos - nem poderia, que tudo o que é determinante na vida do autor de "Memorial do Convento" aconteceu tarde. Mesmo a literatura.

Sobre essa mulher a "quem se confiou como a qualquer outra pessoa não seria capaz" , escreveu ele, no seu blogue: "Graças à sua inteligência, à sua capacidade criativa, à sua sensibilidade e também à sua tenacidade, a vida deste escritor pôde ter sido, mais do que a de um autor de razoável êxito, a de uma contínua ascensão humana."

As declarações de amor e gratidão de Saramago a Pilar - mulher que a escritora e amiga íntima do casal, Nelida Piñon, definiu como "mulher da Bíblia, como se diz das criaturas de têmpera forte, e sempre generosa, fiel, convicta" - foram uma constante ao longo dos 23 anos que partilharam. Depois da pneumonia, que primeiro o atirou durante meses para a cama do hospital e depois, temporariamente, para uma cadeira de rodas, o autor publicou "A viagem do elefante" e dedicou-o a "Pilar, que não me deixou morrer". O mesmo gesto em "Pequenas Memórias": "A Pilar que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar".

Dificilmente outro nome próprio poderia condizer tanto com o papel de uma mulher na vida daquele homem: ela é secretária, conselheira, companheira de convicções políticas (também marxista e comunista), ela é tradutora para Castelhano dos seus livros e do seu blogue, ela é sua advogada de defesa ("Saramago é um ser excepcional, a sua dimensão é distinta e o seu perfil não é o habitual, por isso há tanta gente que não o entende", disse, no ano passado, como quem coloca um ponto final na polémica à volta de "Caim"). Ela preside à Fundação Saramago, depois de ela própria ter procurado e organizado todo o acervo que assegura a preservação da memória do autor.

"Temos uma parceria para a vida", afirmou ela, cúmplice até na devoção. Tanto assim é que Pilar é hoje nome de rua na rua que se cruza com a de Saramago, em Azinhaga, na Golegã ribatejana, terra natal do escritor. Foi a 3 de Junho de 2008. Ele considerou o acontecimento como o seu "terceiro casamento". Ela desejou que "todos os enamorados do Mundo se encontrem e dêem um beijo naquela esquina". Na esquina onde as ruas José Saramago e Pilar del Rio se encontram.

Primeiro encontro em 1986

Eles encontraram-se muito antes. Em 1986. Portugal vivia as eleições mais disputadas de sempre: Freitas do Amaral à direita; Mário Soares à esquerda. Ganhou Soares à segunda volta e o país aderiu à então Comunidade Económica Europeia. E foi numa tarde desse ano que Pilar, ao passear em Sevilha, entrou numa livraria e leu meia dúzia de páginas de "Memorial do Convento". Não sabia quem era Saramago, nunca tinha ouvido falar, mas ficou tão impressionada que comprou todos os seus livros. Devorou "O Ano da Morte de Ricardo Reis" noite adentro e sentiu necessidade de agradecer ao autor que lhe tinha proprocionado aquela viagem. "Um autor só acaba a sua obra quando o livro é lido e entendido. E eu queria dizer-lhe: completou-se o ciclo, li-o e entendi-o".

Encontraram-se em Lisboa, no hotel Mundial. Cumprimentaram-se com um aperto de mão, passearam pela cidade e falaram de quase tudo. E tudo lhes dizia que eram iguais. Depois, foi embora. "Com uma estranha paz". Trocaram livros e críticas pelo correio e, um dia, ele quis voltar a vê-la. Foi assim durante vários fins-de-semana, ele a apanhar o autocarro de Lisboa para Sevilha. Casaram menos de dois anos depois. Ela veio para Lisboa. Mais tarde, ambos para Lanzarote.

"Se eu tivesse morrido antes de te conhecer, Pilar, teria morrido sentindo-me muito mais velho. Aos 64 anos, a minha segunda vida começou. Não posso queixar-me", disse numa entrevista ao New York Times em 2008, exactamente dez anos depois de lhe ser atribuído o Prémio Nobel.

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